Lisboa, 10 (AE) - Mesmo sem ter obtido 50% dos votos, o Partido Socialista deverá ter mais de metade dos deputados do novo parlamento português. Este é o resultado de duas sondagens de boca de urna divulgadas hoje, dia em que os portugueses tiveram eleições. Os resultados das sondagens são 44,1% a 48,5% dos votos para o PS, 28,6% a 32% para o Partido Social Democrata (centro-direita), 8,2% a 10,8% para o PCP, 7,1% a 9,5% para o Partido Popular (direita) e 2% a 3,5% para o Bloco de Esquerda.
No sistema eleitoral português de voto distrital misto - que procura facilitar a obtenção de maiorias -, esses resultados significariam um intervalo entre 116 e 122 deputados para o PS, 66 a 85 para o PSD, 15 a 18 deputados para o PCP, 9 a 13 deputados para o PP e 2 a 3 deputados para o Bloco de Esquerda. Bastam 116 deputados para um partido ter a maioria absoluta do parlamento.
A eleição significou que, depois de quatro anos de governo socialista, os portugueses foram mais para a esquerda. As indicações das sondagens são de que não só o PS obteve a maioria absoluta, como o PCP conseguiu manter sua votação e entrou para o parlamento um partido mais à esquerda do que os comunistas: o Bloco de Esquerda, uma aliança entre ex-membros do PCP, trotsquistas, ex-maoistas e independentes.
Nas primeiras declarações após a divulgação das sondagens todos os dirigentes do Partido Socialista procuraram desdramatizar a obtenção da maioria absoluta. "O Partido Socialista tem uma cultura democrática e há sempre vozes críticas. Há uma tradição de tolerância e o PS não vai usar a maioria para calar as vozes da oposição", afirmou o deputado socialista Manuel Alegre.
No PSD, as explicações da derrota vão para a falta de debate político da campanha. "Antônio Guterres pediu um cheque em branco. A mensagem do PS foi confiem em mim, votem em mim. Não houve discussão de propostas", disse a social-democrata Leonor Beleza. O eurodeputado José Pacheco Pereira considerou que questões como a mobilização nacional em torno de Timor e a comoção gerada pela morte de Amália Rodrigues, quatro dias antes da votação, dificultaram o debate político sobre a votação para o parlamento: "Houve uma despolitização das eleições".
Durante a semana, antes ainda das eleições, começou a luta pela liderança no PSD, com debates em jornais entre líderes de facções políticas questionando e defendendo o atual líder do partido. No Bloco de Esquerda, a grande surpresa das eleições, a festa começou assim que surgiram as primeiras sondagens, no momento em que fecharam as urnas. "A eleição vai iniciar um novo ciclo de intervenção no parlamento português. Vamos ser uma oposição de esquerda à maioria do PS", comentava o historiador Fernando Rosas. Reivindicações locais - Apesar de serem eleições nacionais, muitas vilas tentam chamar atenção para seus problemas locais. Este ano, foram cinco boicotes eleitorais, por questões que vão desde a falta de água e saneamento até a necessidade de melhoria de estradas. Nesses casos, a eleição é repetida no próximo domingo, o que atrasa o resultado final da eleição.
O objetivo dos boicotes é repetir o que aconteceu em 1991 com o bairro de Dona Maria, a 35 quilômetros de Lisboa - os votos da freguesia poderiam fazer a diferença entre mais um deputado para o governo ou a oposição. Na época, os habitantes deram o deputado para a governo e depois tiveram água encanada em casa.

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