Programção da TV brasileira assusta representante da Unesco
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domingo, 13 de fevereiro de 2000
Por Hugo Marques 
Brasília, 14 (AE) - O representante da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) no País, Jorge Werthein, disse que está "profundamente assustado" com o nível de violência e sexo na televisão brasileira, em horários impróprios. Ele recomendou aos pais que apresentem reclamações ao Procon. "Quando compramos algum produto que está podre ou com prazo vencido temos a possibilidade de reclamar no Procon", disse Werthein. "Estamos fazendo isso com a mídia eletrônica? Não!"
Na opinião de Werthein, os pais estão adotando uma atitude "extremamente passiva" em relação ao que assistem e ao que os filhos estão vendo na televisão brasileira. O representante da Unesco afirmou que a sociedade precisa reclamar mais e acompanhar de perto o acesso dos filhos a meios como televisão, Internet, cinema e jogos eletrônicos. As emissoras, disse Werthein, têm de aceitar a auto-regulamentação logo.
Em fase de recuperação de uma cirurgia, Werthein foi obrigado a ficar dentro de casa na última semana. Acompanhou a programação diária das principais emissoras convencionais e a cabo. Werthein, que nos últimos anos vem acompanhando pesquisas sobre violência na TV, disse que ficou assustado com filmes veiculados no período da tarde, quando grande parte das crianças está grudada na televisão. O representante da Unesco disse que viu esta semana, às 13 horas, um filme onde aparecem pessoas fazendo sexo explícito e matando.
O representante da Unesco afirmou que não aceita argumentos de alguns produtores de filmes e programas de televisão, do tipo "isso vende", para veicular programação violenta. Ele acredita que se trata de um escapismo da mídia para impor programação ruim. O representante da Unesco lembra que filmes como "Titanic" e "A Lista de Schindler" provaram que é possível ter grandes audiências sem violência e sexo explícito.
Governo - A Unesco tem incentivado a criação de códigos de conduta para as emissoras de televisão e já trouxe até um especialista do Canadá para mostrar como o sistema funciona. Werthein deixou claro que a iniciativa de cobrar um código de conduta para cada emissora cabe principalmente ao governo. "O governo tem todo o poder", disse. "É o dono das ondas, no caso da TV."
A Secretaria Nacional dos Direitos Humanos vem cobrando um código de conduta das TVs desde o início do ano passado. Além do governo, o representante da Unesco acredita que as escolas deveriam assumir grande parte da responsabilidade pela introdução das novas mídias, como a Internet.
Erotização - Werthein também mostrou-se preocupado com a chamada "erotização da infância". Ele disse que a mídia e a moda estão fazendo com que as crianças "queimem etapas", quando as expõe desnudas e representando adultos.
O representante da Unesco comentou a atitude do garoto de 9 anos que deu várias facadas nas costas de uma menina de 7, em Brasília, depois de assistir ao "Boneco Assassino II". Para comentar o caso, ele recorreu a uma pesquisa feita pela argentina Tatiana Merlo-Flores. Na pesquisa, que envolveu 2.000 jovens, Tatiana constatou que as crianças que já são agressivas por temperamento, ou devido a problemas familiares, sociais ou individuais, "selecionam e integram elementos violentos da TV" ao seu cotidiano.


