Programas oferecem aos refugiados uma chance de começar um negócio próprio
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quarta-feira, 27 de outubro de 1999
Por David Frey 
Nashville, Tennessee (AE-AP) - O caminho para a liberdade de Abdelgabar Adam passa pela direção de um táxi. Médico vindo do Sudão, Adam atendeu várias pessoas que perderam mãos ou pés como punição por crimes insignificantes. Ele se tornou um crítico do governo islâmico e quando seus amigos e família foram mortos por causa de suas opiniões, ele fugiu para os EUA com sua mulher e seus dois filhos.
Incapaz de praticar a medicina por ter formação sudanesa
Adam trabalhou num posto de gasolina e vendeu perfume para sustentar sua família. Agora, ele e seu amigo Venant Sindakira, um refugiado de Burundi, começaram seu próprio negócio no ramo de transportes, a Tenn Cab.
Eles estão entre os cerca de 50 refugiados de Nashville que vêm trabalhando com o Programa Mundial de Ajuda para o Progresso Econômico (World Relief Economic Advancement Program) da World Relief, um braço de assistência internacional da Wheaton, uma associação nacional de evangélicos cuja matriz fica em Illinois.
O programa é designado para ajudar pobres refugiados a começar seus próprios negócios e ficarem fora do sistema de bem-estar social do governo.
O programa de Nashville é um dos 17 cujo foco é a criação de microempresas que recebem fundos do Escritório Federal para a Assentamento de Refugiados (Office of Refugee Resettlement). De Portland, Maine, a Portland, Oregon, o programa coloca a filosofia bancária de ponta cabeça ao emprestar dinheiro aos muito pobres.
"Nós aceitamos os riscos que os bancos sequer considerariam", diz o coordenador do programa Nashville, Larry Jones. "Uma das principais razões da existência do nosso programa é que a maioria dos nossos clientes não pode conseguir empréstimos em bancos".
Muitas vezes sem qualquer dinheiro quando chegam, muitos dos refugiados que procuram Jones perderam crédito ou nunca conseguiram crédito algum. Mas a falta de dinheiro não significa falta de tino para negócio, diz ele. Muitos, como Adam, eram médicos, engenheiros ou tinham o seu próprio negócio em seu país de origem.
"Possivelmente, nos seus países de origem eles tiveram que trabalhar muito mais para ter sucesso em seus negócios do que têm nos EUA", diz Jones. "E eles sabem como lidar com situações difíceis. Você vem de um campo de refugiados onde passou dois ou três anos numa barraca. Isso muda a sua personalidade".
A WREAP oferece empréstimos de até US$ 25 mil e proporciona aulas de administração e auxílio técnico aos aspirantes a empresário, explicando todas as nuances do mundo dos negócios nos EUA, do planejamento comercial até a dar um aperto de mãos firme, no estilo americano.
"Os negócios são mais organizados nos EUA", diz Adam. "Você tem que prever tudo e antecipar os acontecimentos antes que eles aconteçam, porque é você e você mesmo. Você pode obter sucesso ou quebrar o seu negócio. Quando se está no próprio país
trata-se de um assunto familiar".
Adam e Sindakira conseguiram um empréstimo de US$ 13 mil
suficientes para comprar um Chevrolet Caprice ano 1995. Na medida em que o negócio cresce, eles esperam qualificar-se para os empréstimos bancários tradicionais. "Algumas das histórias de maior sucesso nos negócios em nosso país são de pessoas que começaram em suas garagens, abertos em suas casas, iniciados com duas pessoas", diz Jones.
O refugiado bósnio Dragan Simic espera ser um deles. "Por que não? Eu vejo todo mundo fazendo alguma coisa. Todo mundo quer ganhar algum dinheiro", diz ele, vestindo sua camiseta de rugby com a bandeira norte-americana.
Simic e sua família fugiram de sua terra natal a menos de um ano. Durante o dia, Simic quebra pedras para uma empresa de construção. À noite, ele, sua esposa e um outro casal bósnio costuram almofadas de couro para conseguirem um dinheiro extra. Eles esperam que seu negócio doméstico se torne sua principal ocupação algum dia.
Até março, o Escritório Federal para a Assentamento de Refugiados tinha cadastrado 4.617 refugiados em programas de microempresas desde outubro de 1991 e entregue US$ 3 milhões em empréstimos. Quase 63% dos tomadores viviam abaixo da linha de pobreza e 41,5% estavam recebendo alguma assistência financeira. Oitenta e nove por cento dos negócios sobreviveram. Menos de 2% dos empréstimos não foram saldados. "Estes são indivíduos e famílias que foram forçados a deixar suas casas. Eu acho que esta experiência é muito importante para o sucesso dos refugiados, é a transcendência de suas experiências", diz Michael Kharfen, porta-voz do Departamento de Saúde e Serviços Sociais Norte-americano, que administra o ORR.
Empréstimos para microempresas funcionam apenas para aqueles comprometidos em fazer o negócio dar certo com o próprio esforço, diz John Else, presidente e fundador do Instituto para o Desenvolvimento Econômico e Social do Leste, uma instituição sem fins lucrativos localizado em Delaware, que promove pesquisas e consultoria para programas contra a pobreza. "Não se trata da solução para qualquer um", diz ele. "Trata-se de um opção que é importante oferecer às pessoas. Serve a apenas uma parcela relativamente pequena da população de refugiados, mas para estas pessoas é algo essencial".
Mizgeen Zebari abriu seu restaurante, denominado International Market, em Nashville sem qualquer ajuda e aprendeu sozinho o quanto pode ser difícil para um recém-chegado aprender como se comportar no mercado norte-americano. Agora, o refugiado iraquiano auxilia a World Relief a escolher aqueles que receberão empréstimos. "Há muito talento em alguns desses refugiados", diz ele. "Mas a falta de recursos torna muito difícil para eles abrirem seus negócios".
Ilya Rutman teve seus pedidos recusados por dois bancos quando tentou abrir seu negócio de reparo de violinos em Boston. Sem poder conseguir um empréstimo convencional, Rutman, um refugiado judeu da ex-União Soviética entrou num programa de microempresas promovido pelo Serviço Vocacional Judeu de Boston.
Após uma série de aulas de administração, a agência emprestou a ele US$ 10 mil e foi co-signatária da mesma quantia do Banco de Boston, um dos bancos que o havia recusado antes. Seu negócio logo cresceu além do esperado. Ele empregou duas pessoas e sua nova loja em frente ao Boston Symphony Hall está indo muito bem. Este é o tipo de história de sucesso que as agências de microempresas esperam. Mas, se as agências o vêem como um homem de negócios de sucesso, Rutman diz que seus clientes pensam diferente. "Eles me vêem como uma pessoa que os ajuda com o coração aberto", afirma.


