Londrina - Estudos recentes realizados pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) apontam que cerca de 2 milhões de brasileiros são usuários de cocaína, droga considerada por psiquiatras como a principal porta de entrada para o crack. É um contingente inversamente proporcional à eficácia das políticas públicas de combate à droga no País, que pecam por não investir na prevenção. "As iniciativas de combate às drogas são sempre válidas. O problema é que há poucas medidas de prevenção, ou quando tem, são pontuais. E se as medidas são pontuais, o impacto também é pontual", avalia a psiquiatra e presidente da Associação Brasileira do Estudo do Álcool e Outras Drogas (Abead), Ana Cecília Petta Roselli Marques.
Ela afirma que quando o poder público inicia um programa de prevenção e faz campanhas ostensivas esclarecendo os malefícios do uso das drogas, a população tende a despertar para o problema e é gerado o desejo de se entender o fenômeno. "A prevenção é a melhor política para o combate às drogas. Não pode ser pontual, tem que ser moderna e concentrar a maior parte dos investimentos dos programas públicos", defende.
No entendimento da presidente da Abead, construir novos centros de assistência psicossocial para usuários de drogas (Caps-AD) não é a melhor maneira de resolver o problema da dependência, especialmente entre a população de rua. "Sou contra. Não há médicos especialistas para atender de noite nos Caps. Lugar de indivíduo em estado grave, que precisa ficar internado por mais de 12 horas, é no hospital e não em ambulatório", critica. Do jeito que funcionam, salienta a psiquiatra, "os Caps são portas giratórias, onde o usuário chega, é tratado, depois volta para a rua, consome a droga de novo e volta ao Caps." "Ele vai precisar de internamento em hospital psiquiátrico durante um mês para fazer desintoxicação para depois voltar ao Caps", opina.
Ana Cecília cita a Cracolândia, onde centenas de moradores de rua abusam do consumo do crack na região do Marco Zero de São Paulo, como exemplo do fracasso das políticas públicas de combate às drogas. "O Brasil tem que investir em prevenção, no tratamento e controle da oferta de drogas, que nunca foram feitos aqui. Ao contrário, temos na Cracolândia uma experiência de ‘legalização’ da droga", ataca a especialista.
A melhor maneira de lidar com os usuários das ruas, afirma ela, é levá-los para centros especializados, onde terão uma rede de cuidados. "O tratamento de crack não é qualquer coisa e não pode ser feito na rua. O assistente social precisa ser treinado para buscar o paciente e levá-los aos centros especializados", aponta. "Por último, e mais grave, é que as políticas públicas não têm avaliação de resultados. Quando isso não acontece, nosso dinheiro vai para o ralo", finaliza.(D.P.)

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