São Paulo, 04 (AE) - Tommaso Buscetta convenceu-se a trair o crime organizado graças ao Programa de Proteção de Testemunha, criado a partir do julgamento de líderes da Máfia e baseado nas regras férreas de fidelidade, difíceis de ser quebradas. Ele foi o primeiro arrependido que ajudou com suas informações a prender centenas de mafiosos.
Segundo declarações do procurador da Antimáfia da Itália, Pietro Grasso, a idéia do Programa de Proteção as Testemunhas surgiu em 1984, quando o mafioso Tommaso Buscetta, preso no Brasil, resolveu colaborar com a polícia.
Somente sete anos depois, em 1991, a lei foi aprovada e em 1993 o antimáfia foi implantado e o programa se encarrega da segurança, documentação, assistência social e financeira dos beneficiados.
Essa iniciativa conseguiu desarticular a máfia, prendendo quase todos os chefes mafiosos, sequestrando bens dos criminosos
reduzindo a criminalidade e destruindo o mito da lei do silêncio, que reinava na organização.
Tommaso Buscetta empreendeu uma caminhada complexa pelos mecanismos secretos dos crimes de maior repercussão da história e foi um dos homens mais procurados pelas poderosas famílias mafiosas, pois alguns de seus chefes foram capturados em função de suas revelações.
O mafioso declarou à Justiça em 1993 que o jornalista Carmine "Mino" Pecorelli foi morto a tiros em 1979, em Roma, pela Máfia siciliana à mando do ex-primeiro ministro italiano Giulio Andreotti. Em 97, as investigações sobre o mafioso naturalizado brasileiro Antonino Salamone, acusado de crimes como sequestro e assassinatos, também foram baseadas nas informações prestadas por Tommaso Buscetta.
Salamone foi citado como um dos envolvidos na Pizza Conection, o famoso caso "conexão pizza, nos Estados Unidos, esquema em que a máfia usou as pizzarias dos ítalo-americanos para distribuir cocaína. Buscetta sabia sobre Salamone pois cumpriu condenação durante um ano na Sicília com ele.
O livro "Adeus à Máfia - As confissões de Tommaso Buscetta, de Pino Arlacchi, é um relato em forma de autobiografia, resultado de entrevistas feitas pelo autor com Buscetta e do estudo de seus testemunhos perante as autoridades judiciais.
O mafioso descreve minuciosamente a trajetória que o conduziu à maior organização criminosa do mundo, como tornou-se um dos seus principais líderes e por que resolveu denunciá-la.
Algumas frases e afirmações: "Eu falei e continuarei falando... não porque esteja arrependido, essa é uma palavra que sempre me incomodou e que ainda hoje me dá raiva...De que teria de me arrepender?"
"Reneguei, desconheci uma instituição na qual eu acreditava e que servi com lealdade e sem interesse próprio... Dei-me conta do ponto a que chegou a máfia e por isso decidi ajudar a justiça a derrubá-la."
"Acho que muitas atitudes e idéias da Cosa Nostra nas quais eu acreditava são ainda válidas, validíssimas."
No livro além de reafirmar que: "uma vez mafioso, sempre mafioso", ele também explica que o que o moveu a falar foi a necessidade de vingança contra seus antigos amigos e companheiros que o haviam traído.
Buscetta resolveu ser mais inteligente que seus inimigos e quebrou pela primeira vez na história da Cosa Nostra, a lei do silêncio.
"Se me acho mais inteligente que meus inimigos é porque também sei controlar meus impulsos ferinos... De assassino em potencial, transformei-me em acusador, testemunha de acontecimentos trágicos... As pessoas que poderia matar com minhas próprias mãos foram punidas pela lei escrita."

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