Eles resistem com garra – e uma dose de teimosia – às transformações do mercado de trabalho, causadas por inovações tecnológicas e pela demanda por produtos e serviços em escala industrial. Sabem que suas profissões podem estar próximas da extinção, principalmente nas grandes cidades, mas apostam na tradição e na dedicação com que a desempenham.
O tempo passa, o mercado muda e eles continuam firmes: em tempos de metrôs superápidos e vestuário industrial, Raimundo conduz bondes e Fracchetta faz sapatos a mão
Nestor Raimundo, de 54 anos, é um desses ‘‘sobreviventes’’. Dirige bondes no Parque do Taquaral, em Campinas. ‘‘Sou um dos últimos deste ramo’’, diz. ‘‘No Brasil temos profissionais apenas em Santos, Campos do Jordão e no bairro de Santa Teresa, no Rio.’’ O motorneiro é também mestre de manutenção dos quatro carros que percorrem 3,5 quilômetros de trilhos no parque, num trajeto feito de 15 minutos. Os veículos transportam cerca de 4 mil pessoas nos fins de semana mais movimentados.
Integrante da Associação de Preservação Ferroviária de Bondes, Raimundo aprendeu a dirigi-los há 20 anos. A paixão pelo ofício, porém, é mais antiga. ‘‘Aprendi a fabricar peças na escola industrial, aos 14 anos’’, diz, recordando do tempo em que usava o bonde como meio de transporte. Desde então, participou da montagem de mais de cem locomotivas.
O motorneiro orgulha-se de identificar, com facilidade, qualquer tipo de problema mecânico. ‘‘Sou do tempo em que o profissional dominava todo o processo’’, diz. ‘‘Localizo o defeito na raça, no ‘olhômetro’, e faço reparos. Se precisar substituir a peça, desenho o modelo e supervisiono a confecção.’’
Algumas vezes é preciso contratar uma fundição para produzir o material. Nesses casos, é Raimundo quem fornece a receita da liga metálica mais adequada para cada tipo de peça. Segundo o motorneiro, é muito difícil encontrar peças prontas para reposição, já que os bondes americanos, comprados em 1912, foram fabricados em 1906. Antes de serem levados para o parque, faziam linhas regulares na cidade. ‘‘Queria muito dirigir bondes no trânsito’’, diz Raimundo, com uma ponta de inveja daquela época.
Como ocorria na Idade Média, quando os mestres sapateiros ensinavam o ofício ao herdeiro, Irineu Fracchetta, de 71 anos, revelou ao filho, Marcelo, de 34, seus segredos. Apesar da concorrência da indústria, o negócio se mantém, há 40 anos, a ponto de o rapaz ter desistido de cursar engenharia para dedicar-se a ele.
De modo artesanal, pai e filho tiram medidas e modelam a fôrma com cortiça, para que, mais tarde, o couro seja costurado de acordo com o tamanho exato e a curvatura de cada pé. Se houver necessidade, Fracchetta e Marcelo também costuram e montam as peças. Os pares são produzidos numa modesta oficina, localizada no andar de cima da lojinha, no centro de São Paulo, onde trabalham, além dos donos, seis funcionários.
No arquivo com mais de três mil fichas de clientes estão medidas de pés como o da modelo Joana Prado, a Feiticeira. No carnaval de 1999, ela encomendou uma sandália alta, toda trançada na perna, no mesmo tom de dourado da medalhinha de seu véu. Fracchetta também já fez calçados para os atores Ney Latorraca, Marco Nannini e Beatriz Segal. ‘‘Recebemos pedidos de companhias de teatros, shows, escolas de samba, até a TV Record já encomendou botas.’’
O sapateiro não esconde, porém, que prefere atender aos pedidos individualmente. ‘‘Ainda que a pessoa chegue querendo encomendar mais de um par logo na primeira vez, sugerimos que faça um e, se gostar, encomende outros’’, diz. ‘‘Em primeiro lugar é preciso ouvir o cliente, saber exatamente o que deseja, por isso gastamos o tempo que for necessário nessa primeira conversa, antes mesmo de tomar as medidas do pé da pessoa’’, explica. Depois de alguns dias, o cliente retorna para a prova. Os sapateiros garantem que quem usa o serviço geralmente volta. A fama de Fracchetta cruzou fronteiras e a sapataria já atendeu fregueses do Canadá e África do Sul.
‘‘Tenho uns dez pares feitos especialmente para mim’’, calcula a professora aposentada Maria do Carmo Pereira de Melo, de 56 anos, cliente da sapataria há mais de 15. Ela calça sapatos número 37 e meio. ‘‘Já perdi muito calçado comprado em loja, ou ficam largos ou apertados, mas se faço sob medida sei que terei um sapato bonito e confortável’’, afirma.
Sapatos femininos custam de R$ 160,00 a R$ 250,00, dependendo do modelo, do material usado e das medidas. Os masculinos saem por cerca de R$ 200,00. Segundo Marcelo, um par pode ser confeccionado em até três dias de trabalho, mas a entrega só costuma ser marcada após um período de 15 a 20 dias. ‘‘Temos fila de espera’’, justifica o sapateiro.

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