Fortaleza- As chuvas no Nordeste chegarão mais tarde em 2005. Pelo menos, é o que indicam os profetas populares do Ceará. Cerca de 18 deles se reúnem hoje no IX Encontro Anual da categoria, em Quixadá, a 200 quilômetros de Fortaleza. Também conhecidos como ''profetas das chuvas'', eles aprenderam com os antepassados a reconhecer, observando a natureza, se um ano vai ser de bom inverno ou não. Vale lembrar que, no Nordeste, o inverno está diretamente relacionado à temporada chuvosa, que começa em janeiro e não ao mês de junho, quando começa oficialmente no Brasil.
Na sabedoria desses profetas, os sinais do tempo vêm do comportamento das formigas, das abelhas, dos pássaros e de animais diversos. Alguns preferem olhar para o céu. É o caso de Francisco Mariano Filho, de 70 anos, conhecido como Chico Mariano, natural de Quixadá, e um dos mais antigos profetas do tempo.
No entender dele, a meteorologia é uma ''ciência limitada'', pois só consegue prever o futuro do tempo uns dois ou três dias antes. ''Eu faço as minhas pesquisas e experiências durante o ano todo, e quando chega uma altura, eu já posso dizer com certeza, se o inverno vai ser bom ou não, com bastante antecedência'', vangloria-se.
Segundo Chico Mariano, o sertanejo pode contar com água a partir do próximo dia 20. ''Este ano as chuvas vão começar um pouco mais tarde e não teremos a mesma calamidade do ano passado. Só em algumas regiões do litoral do Estado é que será mais forte'', indica.
No ano passado, o índice de acerto foi de 50%. Seu Chico previu cidades ilhadas e em estado de calamidade. E aconteceram de fato. Mas, assim como outros profetas cearenses, ele achava que as chuvas iriam começar em fevereiro e caíram logo a partir de janeiro.
As dicas do tempo também vêm dos planetas. ''Se Vênus, que é a estrela Dalva, passa do nascente para o poente, vai nevoar e chover'', ensina Chico Mariano. Outro que tem o céu como referência é o profeta Chico Leiteiro. Ele costuma, desde menino, varar as madrugadas olhando as estrelas e as nuvens. ''Você vai vendo os sinais, se você tem o dom, decifra, interpreta o que vê'', disse.
Antonio Anastácio da Silva, de 70 anos, conhecido em Quixadá como Paroara, previu um inverno muito mais seco do que o de 2004. Ao contrário de Chico Leiteiro e de Chico Mariano, que têm o céu como fonte principal de sinais, Paroara concentrou suas observações nos bichos da caatinga. ''Tenho uma força cósmica, dada por Deus, que faz os bichos me temerem, sempre. Isso facilita minhas previsões'', afirmou.
Pelo sim pelo não, para o historiador Lemos Júnior, que publicou uma monografia sobre os profetas de Quixadá, é muito importante resgatar as histórias contadas por eles, sejam fatos ou simples mitos. ''À medida em que esses depoimentos são gravados e publicados, torna-se possível conhecer a visão que os segmentos populares têm de suas vidas e do mundo que os cerca'', avaliou.

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