Professores começam greve de fome
Um grupo de 14 professores universitários federais iniciou ontem à tarde uma greve de fome em Brasília. Inicialmente um protesto contra a retenção dos salários de maio - já liberados pelo governo -, a manifestação passou a ter como objetivo a retirada, do Congresso, do projeto de lei do Ministério da Educação que prevê gratificações para os professores. Poucas horas antes do início da greve de fome, os servidores técnico-administrativos montavam acampamento em frente ao MEC para forçar a negociação. A greve dos professores começou no final de março.
Nos une o fato de que viemos de famílias pobres e, se não fosse a universidade pública, não teríamos chegado até aqui, disse a professora da faculdade de Assistência Social da Universidade Federal de Mato Grosso Irenilda Santos em nome dos voluntários na greve de fome. Todos usavam camisetas brancas com a frase Privo-me da comida porque me tiraram a voz, o salário e o respeito.
O grupo, heterogêneo, reúne professores de 36 a 57 anos, doutores, mestres ou apenas graduados, que se prepararam durante o final de semana em um retiro em Brasília, com uma dieta à base de líquidos. Eles ficarão em salas de aula na Universidade de Brasília (UnB), de paredes descascadas, equipadas com beliches e roupas de cama novos.
No grupo, se destacava a ex-prefeita de Fortaleza pelo PT, entre 1986 e 1988, Maria Luíza Fontenelle. Aos 55 anos, aposentada aos 50 anos pela Universidade Federal do Ceará, onde lecionava Sociologia, ela foi deputada federal e atualmente tenta estruturar o Partido da Revolução dos Trabalhadores Pela Emancipação Humana. O governo nos levou a esta greve de fome, por tratar os professores de forma abominável e intransigente, afirmou Maria Luíza.
Ela diz que decidiu entrar na greve para também defender os aposentados. Sou aposentada, mas não vagabunda, disse ela, citando as críticas do presidente Fernando Henrique Cardoso aos que se aposentam cedo no Brasil.
Aos 46 anos, o professor de Geometria da Universidade Rural do Rio de Janeiro Delson Filho disse se sacrificar em nome da universidade para garantir o sustento da família. O meu maior título são meus filhos e eles precisam de mim. A presidente da Associação Nacional dos Docentes, Maria Cristina de Morais, disse que a greve de fome é para forçar o MEC a reabrir as negociações para um projeto consensual de reajuste nos salários.
De acordo com a presidente da Andes, o comando de greve decidiu mudar o objetivo do protesto depois de o governo ter tentado convencer a população de que o projeto de lei enviado ao Congresso havia sido fruto de negociação. Os professores não aceitam que os valores das gratificações (de, no máximo, 48%) estejam vinculados à produtividade e que os aposentados ganhem percentuais menores do que os professores em atividade.
Maria Cristina afirmou que as assembléias ainda não discutem um possível fim da greve, que já dura 77 dias. Os servidores técnico-administrativos, em greve há 61 dias, também querem negociar. Eles dizem que o governo recuou na proposta de reorganização da carreira, com reajuste salarial médio de 20%. A solução foi acampar até que nos recebam, informou José Maria de Castro, um dos diretores do Sindicato. Mais de 50 pessoas montaram barracas em frente ao MEC.Lindauro Gomes/AE(Não é permitida a reprodução total ou parcial desta foto dentro ou fora do Brasil)PressãoProfessores seguram faixa anunciando o início da greve de fome organizada pela Associação Nacional dos Docentes de Ensino Superior (Andes)Sônia Cristina Silva
Agência Estado





