Professora cobra política de integração à rede regular
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segunda-feira, 08 de setembro de 2003
Kamila Fernandes<br> Agência Folha 
Fortaleza - O curto prazo dos programas de alfabetização em massa de jovens e adultos e a falta de uma política de integração dos alfabetizandos à rede regular de ensino preocupa especialistas em educação, que apontam para a possibilidade da proliferação dos chamados ''analfabetos funcionais'' em curto espaço de tempo. ''Se não houver uma política de inserção dessas pessoas à rede de ensino regular, no último ano do governo Lula, os que participaram da primeira turma desses programas de alfabetização já serão analfabetos funcionais'', disse a professora Eliane Dayse Pontes Furtado, do curso de educação da UFC (Universidade Federal do Ceará).
Os analfabetos funcionais são aquelas pessoas que conseguem decodificar letras, mas não chegam a interpretar textos. ''Três, quatro meses é muito pouco tempo para uma pessoa compreender um texto, isso já foi comprovado cientificamente, o cérebro precisa de mais tempo'', afirmou a professora.
Ela citou como exemplo de programa de erradicação do analfabetismo que não deu certo o implementado por Paulo Freire na Paraíba, na década de 60. ''Como explicar que, ao final, ainda havia pessoas não-alfabetizadas? Na época, não se conhecia a psicogênese da língua escrita, como se conhece atualmente. Hoje, um erro desses é injustificável.''
Furtado foi uma das que assinaram um manifesto, entregue ao presidente Lula no lançamento do programa Analfabetismo Zero, em abril, em que se cobrou a ampliação do programa, de forma a prever a inclusão dos beneficiados no sistema de ensino regular. ''O governo está receptivo, mas é necessário que haja bastante pressão para haver mudanças'', disse.
O ministro Cristovam Buarque afirmou que o analfabetismo só não foi erradicado no país porque não é ''contagioso''. Esse é o motivo pelo qual, segundo ele, a elite nunca tratou disso como um problema a ser resolvido em caráter de urgência. ''A elite brasileira despreza o povo'', afirmou Buarque. Segundo ele, o analfabetismo poderia ter sido erradicado desde o século 19. Os militares, disse ele, tiveram a chance de erradicar o problema, mas não o fizeram.
Buarque disse que a classe média ''inventou a escola privada'' e deu soluções individuais para seus problemas. Esse é o motivo, disse ele, pelo qual o transporte público, assim como a educação, enfrentam problemas. Ainda segundo Cristovam Buarque, a paralisia infantil só foi erradicada no Brasil porque ''pega em rico''.


