O professor de medicina legal George Sanguinetti, da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), apresentará hoje à comissão de sindicância da Câmara que apura o assassinato da deputada Ceci Cunha (PSDB-AL) um relatório preliminar no qual aponta falhas no laudo da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), no interior de São Paulo, sobre as vozes do deputado Talvane Albuquerque (sem partido-AL) e do pistoleiro Maurício Novaes, o ‘‘Chapéu de Couro’’.
‘‘Não acho que os dois momentos de falha apontados pelo perito da Unicamp, Ricardo Molina, sejam por problemas de queda de linha, mas são cortes’’, disse. ‘‘Neles, podem ser incluídas palavras ou frases que podem até mudar o sentido da conversa.’’ A fita, entregue à comissão na semana passada, foi gravada pelo deputado Augusto Farias (PFL-AL). São conversas, comprovadas pela perícia da Unicamp, entre Albuquerque e assessores dele com ‘‘Chapéu de Couro’’.
Segundo Farias, Albuquerque estaria contratando o pistoleiro para o matar, usando códigos como ‘‘litros de mel’’ para cada criminoso. O laudo afirma que os dois momentos onde há cortes na fita são técnicos e não propositais.
Sanguinetti ficou conhecido nacionalmente quando, há dois anos e meio, apresentou um laudo diferente do apresentado pelo legista Badan Palhares sobre a morte do ex-tesoureiro do ex-presidente Fernando Collor de Mello, Paulo César Farias, o PC, e da namorada dele, Susana Marcolino. Sanguinetti considerou que o crime não foi passional e necessitava de mais investigações. O laudo de Palhares havia concluído que Susana havia matado PC Farias.
Segundo Sanguinetti, Albuquerque não o contratou, mas ele está ‘‘em busca da verdade’’. ‘‘Tanto ele (Albuquerque) quanto Ceci foram meus alunos; quero ver isso esclarecido’’, disse. O legista afirmou que, desde que divulgou o laudo sobre a morte de PC Farias, anda com oito seguranças. ‘‘Tento evitar a morte, mas não temo pela minha vida porque sei que sou um homem marcado’’, afirmou.
O legista disse que precisaria de 15 dias para um exame mais detalhado da fita, mas a comissão marcou o depoimento para hojw. ‘‘Depois, devo levar a fita para São Paulo e, em 15 dias, terei um relatório final’’, afirmou. Para este relatório, Sanguinetti afirmou que precisa do detalhamento do tempo das ligações telefônicas. Hoje, a comissão deverá receber os documentos com a quebra do sigilo telefônico e bancário de ‘‘Chapéu de Couro’’, Albuquerque e Farias.
Sanguinetti criticou o inquérito da polícia alagoana entregue à comissão. ‘‘Eles sequer fizeram perícia no local do crime ou ouviram a única testemunha que afirma ter visto os assessores de Talvane no local do crime’’, disse.
Na semana passada, ‘‘Chapéu de Couro’’ reafirmou à comissão o que havia falado à Polícia Federal (PF): que Albuquerque o contratou para matar Farias. Segundo o pistoleiro, com a recusa ao assassinato de Farias, Albuquerque teria mandado os próprios assessores particulares assassinar a deputada. Os três assessores do deputado, que estão com prisão preventiva decretada por serem suspeitos de executores do crime, estão foragidos.
Ceci foi assassinada em 16 de dezembro, em Maceió, com três parentes, horas depois da diplomação. De acordo com o pistoleiro, Albuquerque queria o mandato da deputada por conta da imunidade parlamentar, que evitaria que ele fosse investigado ou julgado pela Justiça comum.
Ontem, pela segunda vez desde que foi apontado como principal suspeito de ter sido mandante do assassinato de Ceci, Albuquerque foi à tribuna com discurso defensivo. ‘‘Quero que me suspendam as prerrogativas de imunidade parlamentar para receber as acusações que políticos torpes de Alagoas me fazem’’, afirmou. O regimento da Casa, contudo, afirma que a imunidade parlamentar não pode ser suspensa sequer por pedido do deputado.
Na semana passada, o corregedor-geral da Câmara e presidente da comissão, Severino Cavalcanti (PPB-PE), afirmou que, pelo apurado até então, se tivesse de dar um ‘‘voto de minerva’’, seria pela cassação de Albuquerque. ‘‘Mas, se há falhas apontadas por outro especialista, vamos ter de estudar’’, disse ontem.
Albuquerque será ouvido na comissão hoje, pela segunda vez, junto com Sanguinetti. A comissão tem até quinta-feira para apresentar o relatório. O prazo pode ser prorrogado, caso o relator peça à presidência da Câmara. Mesmo que a comissão entregue um relatório sugerindo a cassação de Albuquerque, não há tempo hábil para que a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) inicie um processo ainda nessa legislatura.
Albuquerque, a não ser que renuncie, poderá tomar posse do cargo em fevereiro, como primeiro suplente da coligação que elegeu a deputada assassinada.

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