Professor da FGV descarta confisco da poupança
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segunda-feira, 01 de fevereiro de 1999
Por Renata de Freitas 
São Paulo, 31 (AE) - O conjunto de medidas econômicas que podem ser anunciadas em breve pelo governo não deve incluir o confisco da poupança porque a solidez do sistema financeiro nacional é o único ponto forte do País neste momento. O professor de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Ernesto Lozardo aposta numa combinação de corte no Orçamento da União e monetarização da dívida interna para projetar crescimento de 1% este ano.
"O trunfo que o governo tem hoje para os mercados interno e externo é a solidez do sistema financeiro brasileiro", afirmou Lozardo, lembrando que, embora tenha havido alguma fragilidade durante a crise na µsia, o programa do governo de recuperação dos bancos (Proer) evitou quebra-quebra na crise da Rússia.
"É um sistema financeiro que está suportando todas as ondas", comentou o economista. "As regras do sistema financeiro têm de ser intocáveis", disse.
"Esse é o nosso único ponto forte", acrescentou. "Se quebrar essa solidez do sistema financeiro, aí, rui tudo." Lozardo apontou um "jogo duro" dos especuladores para impulsionar o dólar.
Ele argumentou que, como está chegando ao fim a escalada do dólar em relação ao real, os especuladores lançam boatos falsos de feriado bancário e de sequestro da poupança para estimular a demanda pela moeda americana.
Para Lozardo, o perfil da dívida externa brasileira não traz preocupações, embora a desvalorização do real tenha impacto sobre o pagamento.
A dívida externa pública é de US$ 92 bilhões, enquanto a privada chega a US$ 108 bilhões. O problema é o resgate este ano de R$ 199 bilhões dos R$ 319 bilhões da dívida interna. Os juros altos encareceram essa dívida, mas o economista recomendou a recompra e foi contrário ao alongamento.
Segundo Lozardo, o governo deve combinar um "corte brutal" no Orçamento da União para este ano com a monetarização da dívida. O economista defendeu um corte de pelo menos 20% no Orçamento de R$ 190 bilhões deste ano.
"São coisas factíveis, mas com custo político enorme", admitiu. "Fernando Henrique está em início de mandato e pode quebrar muita louça", disse. Um corte equivalente a R$ 40 bilhões no Orçamento da União significaria praticamente zerar gastos com custeio e investimentos.
"É parar tudo mesmo", reconheceu Lozardo. "Um corte brutal no Orçamento significa recessão", observou o economista.
Mas, com a emissão de moeda para a recompra de metade dos R$ 80 bilhões da dívida interna que vencem no primeiro trimestre, haveria aumento de liquidez e queda dos juros. Poderia haver também retomada da inflação.
"Inflação de 10% ao ano não é nenhum absurdo", comentou Lozardo. Ele prognosticou que pode ocorrer uma perda real de salário "muito grande" este ano, mas também um ganho da massa salarial. O cenário final seria um crescimento de 1% do Produto Interno Bruto (PIB).
A queda do câmbio não aconteceria, no entanto, tão rapidamente quanto a dos juros. Lozardo considerou correta a declaração do presidente Fernando Henrique Cardoso de que a taxa de câmbio deve ir até onde tiver de ir.
"O real vai ter de perder mais em relação ao dólar", projetou o economista. Segundo ele, a moeda tem de chegar até onde todos pensem que não pode avançar mais, e citou a marca de 2,50 dólares.
Então, segundo ele, teria início uma volta autônoma dos dólares. Isso aconteceu no México, na Coréia do sul, na Malásia e em Hong Kong.
"Talvez em um mês e meio ou dois, no máximo, o câmbio vai chegar a um nível muito inferior com a entrada autônoma de dólares", disse. O dólar médio do ano deve ficar entre 1,76 real e 1,78 real, projetou Lozardo.
Os saldos na balança comercial voltariam em três meses, na avaliação do economista. Ele calculou um superávit de R$ 2 bilhões neste ano e considerou exagerada a projeção da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) de R$ 4 bilhões. "A retomada é lenta porque os juros ainda estão elevados", comentou.
O economista da FGV defendeu mais flexibilidade do governo federal para aceitar uma renegociação das dívidas dos Estados. "Não dá para ficar intransigente", afirmou. "O que pode nos atrapalhar é essa dívida", disse. "Se não houver acordo, a credibilidade do governo desaparece", acrescentou. "Um acordo é imprescindível." Para Lozardo, o primeiro acordo com os Estados foi bom, mas o cenário mudou e demanda renegociação. Mesmo que governadores que fizeram o ajuste das contas, como Mário Covas (PSDB), em São Paulo, fiquem contrariados.
Segundo o professor da FGV, o governo não tem escolha a não ser adotar essas medidas econômicas. "Não há mais o que fazer", declarou. "O quadro atual, se não mudar, é de profunda recessão"
afirmou. O cenário positivo aponta para crescimento de 4% em dois anos, como se verifica na Coréia do Sul.


