Produtores dizem que ficam em Brasília até acordo sair
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quarta-feira, 18 de agosto de 1999
Por Cláudia Dianni 
Brasília, 18 (AE) - Os produtores rurais pretendem permanecer em protesto na Esplanada dos Ministérios até que governo e líderes cheguem a um acordo com relação à dívida do setor, de R$ 25 bilhões. Muitos ruralistas disseram aceitar negociar uma saída ainda que não seja a sugerida pela Comissão de Agricultura. Eles querem uma alternativa que contemple pequenos e médios produtores e converta o valor de suas dívidas em "números reais", descontados os juros embutidos por ocasião de pacotes econômicos, que multiplicaram o valor do endividamento.
Muitos pequenos ruralistas, porém, cuja dívida supera o teto de R$ 10 mil sugerido pelo governo para abater o débito, rejeitam a proposta feita na terça-feira. "O governo fala em perdão, perdoar o quê se eu só quero pagar o que devo e não o que me foi roubado", disse o produtor rural Luís Carlos Nogueira de Silos, que veio do interior de São Paulo, em um ônibus fretado pelo sindicato local.
Silos planta milho em 20 alqueres no município de Ilha Solteira e adquiriu a dívida em 1995 quando comprou um trator de R$ 24 mil. Desse valor, ele pagou R$ 6 mil reais e o restante da dívida foi securitizada. O saldo, agora de R$ 19 mil, chegou a R$ 32 mil. "Devo ao governo cinco mil sacos de milho", lamentou Silos, que pagou R$ 30 reais ao sindicato para ser levado a Brasília.
"Sei que tem muita gente com muito dinheiro aqui, mas nós, os pequenos, o que vamos fazer?", lamentou. "O Banco do Brasil sabe tudo de mim, todo o dinheiro que tenho e pode separar o joio do trigo, não faz porque não quer."
O casal de produtores de mandioca Lauro Meyer e Dalila Meyer também chegaram a Brasília em um dos quatro ônibus fretados pelo Sindicato dos Produtores Rurais de Paranavaí (PR). "Estamos entre os menores produtores e devemos R$ 150 mil", afirmaram. "Quase ninguém deve R$ 10 mil", especularam. O casal envividou-se em 1995, para pagar bóias-frias. O débito, segundo eles, chegou a R$ 292 mil. "Pagamos R$ 47 mil e o restante foi securitizado."
Um exemplo do que a política de juros fez com a dívida dos agricultres nos últimos anos é o caso de Júlio Osmar Emerick
do Mato Grosso. Em 1992, ele comprou uma colhedeira Ford New Holland avaliada em US 44 mil e hoje mostra o documento de execução da dívida no valor de R$ 1,050 milhão. "Cheguei a pagar 20% do valor da máquina e mais uma prestação equivalente a R$ 12 mil na época, porque o governo só faz o Finame de 80% do valor do bem", contou.
O plantador de algodão de Querência do Norte (PR), João Reginato, conta que vendeu metade de seu patrimônio para pagar a dívida feita em setembro de 1994, no valor de R$ 130 mil, para custear a lavoura do algodão. "Vendi um sítio de 13 alqueires, algumas vacas, um trator e uma colhedeira", contou. Segundo ele
naquele ano, colheu 70 mil arrobas de algodão, mas em maio de 1995 já estava devendo mais de R$ 200 mil.
Para o presidente do Sindicato Rural de Cristalina (GO), que levou 180 produtores rurais da região ao protesto, a proposta do governo "não resolve a situação da maioria". De acordo com os cálculos do sindicalista, um produtor de leite que financiou 25 vacas e um motor desintegrador pelo Banco do Brasil
por meio do Fundo Constitucional de Desenvolvimento do Centro Oeste (FCO), deve hoje R$ 184 mil.
"Vamos ficar aqui até conseguirmos negociar a dívida, porque em 1995 viemos para pedir que fossem recalculadas e saímos daqui com uma securitização", disse.
O caminhoneiro João Antônio Lima de Souza, de Cristalina
pegou carona no protesto dos ruralistas. "Vim apoiar a causa deles porque transporto cereais e meu trabalho depende dos agricultores", disse Souza, que disse ter participado também da greve dos caminhoneiros no mês passado. O caminhoneiro reclamou do "baixo preço" do frete, pago pelo produtores rurais.
"O preço mínimo do milho não aumenta desde 1994, mas aumentou o diesel, o salário mínimo e o adubo", disse Alécio Marostica, da comissão de grãos da Federação da Agricultura do Estado de Goiás. "O frete continua o mesmo porque a renda do agricultor diminuiu e o caminhneiro não pode receber aumento no preço do frete, que é o que estão reivindicando, e o pequeno produtor vai acabar virando sem terra e isso não vai acabar nunca", disse.
Revezamento - Segundo o diretor do Sindicato dos Produtores Rurais do Distrito Federal, Vilmar Luís da Silva, que coorenou a recepção dos ruralistas de outros estados, havia hoje em Brasília 1.800 caminhões, 300 ônibus, 600 máquinas (tratores e colhedeiras) e cerca de 15 mil produtores rurais. Ele afirma que os produtores poderão fazer um revezamento, para não abandonar as lavouras por muito tempo, mas que não vão sair de Brasília sem acordo.
"Em 1995 viemos tratar com o Executivo para recalcular a dívida e eles fizeram o corte pelo maior valor", reclamou. "A chance deles de resolver o problema foi em 95, agora vamos tratar com o legislativo que está do nosso lado", disse Vilmar, para quem a proposta do governo de oferecer desconto envididads até R$ 10 mil teve o objetivo de "rachar o movimento".
Na opinião de Vilmar, caso o governo não resolva o caso dos agricultores agora, terá um problema muito maior no fututo, que será de abastecimento. "Nossa proposta não é só negociar a dívida, apresentamos a agenda positiva que promete gerar 1,5 milhão de empregos, expandir a produção entre 3% e 5%, produzir 100 milhões de toneladas de grãos por ano e exportar US$ 45 bilhões por ano. Mas precisamos de uma solução para a falta de renda, o desrespeito ao direito de propriedade e para o endividamento."


