Produtores de arroz do Mercosul não chegam a acordo2/Mar, 18:02 Por Sérgio Bueno Porto Alegre, 02 (AE) - Terminou sem acordo o segundo encontro entre produtores de arroz do Mercosul para negociar as exportações do produto argentino e uruguaio ao Brasil. A diferença entre a proposta dos brasileiros - de fixar um limite de 550 mil toneladas para evitar quedas maiores de preço nesta safra - e os planos de exportação dos países vizinhos aumentou das 100 mil toneladas da reunião passada para quase 200 mil. A ausência de representantes da Argentina também pesou para a falta de entendimento e uma nova reunião foi marcada para o dia 24, em Montevidéu. De concreto, o encontro na Federação da Agricultura do Estado (Farsul) gerou um documento onde a comitiva uruguaia, liderada pelo presidente da Associação dos Cultivadores de Arroz Ricardo Ferrez, propõe-se a "racionalizar" as vendas para o Brasil. "Em especial nos meses de março e abril para evitar distorções nos preços". Na safra passada, o Uruguai exportou 24 mil e 30 mil toneladas do produto nesses dois meses. A Argentina 54 mil e 47 mil toneladas, respectivamente. O mesmo documento afirma que o Uruguai pretende exportar 45% da safra atual de arroz, de 1,150 milhão de toneladas, para o Brasil. Isso dá perto de 520 mil toneladas, quase 100 mil toneladas a mais do que havia sido cogitado na reunião passada, dia 21 de fevereiro. Somado às quase 220 mil toneladas já previstas pela Argentina, o total alcança 740 mil toneladas, contra as 550 mil que os brasileiros aceitam. No ano passado, o volume importado pelo Brasil dos dois sócios do Mercosul chegou perto de 1,1 milhão de toneladas. O encontro de hoje foi tenso. Os cinco representantes da delegação uruguaia foram pressionados o tempo todo pelos produtores brasileiros e se retiraram logo após a redação do documento. Mesmo assim, no final da reunião, o presidente da Farsul, Carlos Sperotto, o deputado federal Luiz Carlos Heinze (PPB-RS) e o diretor de Abastecimento da Secretaria de Política Agrícola do Ministério da Agricultura, Vilmondes Olegário da Silva, procuraram manifestar otimismo com os "avanços" das negociações. O presidente da Federação dos Arrozeiros do Estado (Federarroz), Antônio Elói Paz, estava mais cético. Ele preocupa-se com a demora para fechar um entendimento, pois até a próxima reunião, dia 24 deste mês, o produto uruguaio e argentino poderá continuar ingressando sem controle no mercado brasileiro. O dirigente também não está convencido de que as exportações da Argentina seriam reduzidas em 50% este ano por conta da quebra da safra, como disseram em fevereiro os representantes daquele país. "Queremos evitar a fixação de cotas, pois as estimativas de safra são variáveis", comentou Sperotto. De acordo com ele, isto poderá alterar as projeções de exportação do Uruguai e da Argentina tanto para o Brasil quanto para terceiros países. "Pela primeira vez chegamos a um consenso de que é preciso evitar o aviltamento de preços no mercado". Mas para isso, por enquanto, só houve acordo de que é preciso estimular as exportações conjuntas do Mercosul para terceiros países e aumentar a Tarifa Externa Comum (TEC) sobre o ingresso de arroz de outros blocos de 13% para 35%. A posição já foi assumida pelo governo brasileiro, que pretende obter a adesão formal da Argentina, Uruguai e Paraguai, informou Vilmondes Olegário. Ricardo Hahn, da Associação de Moinhos de Arroz do Uruguai, disse que a limitação das exportações uruguaias e argentinas para o Brasil, em 550 mil toneladas, está "descartada". "Este é um mercado comum e a imposição de cotas é o caminho do inferno", afirmou, numa alusão a possíveis retaliações entre os Estados membros. De acordo com ele, o plano de seu país e a Argentina de exportar 740 mil toneladas de arroz ao mercado brasileiro é "aproximativo". Olegário disse que o governo, como "observador", considera "imprescindível" que as negociações prossigam para contornar a situação "prejudicial aos três países". Ele disse ainda que o entendimento entre os produtores é necessário porque o governo "não tem caixa" para retirar do mercado este ano as mesmas 800 mil toneladas que foram adquiridas em 1999. Olegário afirmou que o momento não é de "retaliações nem bravatas" e que o Mercosul está "maduro" para aprofundar os "entendimentos privados" também em setores como trigo e algodão. A declaração foi uma resposta ao secretário da Agricultura do Rio Grande do Sul, José Hermeto Hoffmann, que propôs a "revisão" dos termos do acordo do Mercosul. Para o secretário gaúcho, a agricultura nacional não pode continuar como "moeda de troca" em favor das exportações brasileiras de produtos industrializados para os demais países do bloco. Ele defendeu a imposição de taxas e cotas para importação de produtos agrícolas com a finalidade de reverter a desvantagem da produção nacional em setores como trigo, milho, leite, cebola e, agora, arroz.

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