O aumento das exportações agrícolas brasileiras nas últimas décadas, principalmente de soja, fez-se à custa de grande impacto ambiental no Cerrado, região central do País, resultando em maior concentração da terra e diminuição do emprego no campo. Essa é a principal conclusão da publicação ‘‘Expansão Agrícola e Perda de Biodiversidade no Cerrado: Origens Históricas e o Papel do Comércio Internacional’’, lançada ontem pelo Fundo Mundial para a Natureza (WWF-Brasil), em Brasília.
A publicação mostra que, em 1975, 13% das propriedades rurais de Mato Grosso tinham entre 100 e 1.000 hectares. Em 1995 as propriedades com estas dimensões eram 30%. Entre 1985 e 1996 houve uma redução de 19% dos postos de trabalho na agricultura na região Centro-Oeste. Em Goiás, essa redução chegou a 23%.
Mas o pior impacto dessa expansão agrícola na região, segundo o WWF, é a pressão sobre o meio ambiente. Dos 226 milhões de hectares do Cerrado, 80% já foram destruídos ou ocupados, cerca de 19,15% correspondem a áreas preservadas e apenas 0,85% são unidades de conservação.
O estudo publicado mostra que, em 1996, a pecuária ocupava 60% do território e as lavouras cobriam 6% da região, sendo que a cultura da soja era responsável por 3,7%. Segundo maior produtor de soja do mundo (31,6 milhões de toneladas por ano), o Brasil exporta metade da soja produzida e o Cerrado responde por 45,5% da produção nacional.
Para fazer frente ao aumento da oferta mundial e à queda dos preços da soja no mercado externo nos anos 90, o governo vem acenando com os chamados ‘‘corredores de exportação’’, ligando o Cerrado aos portos da região Norte. Parte dos Planos Plurianuais, esses corredores fazem parte da estratégia dos ‘‘eixos de desenvolvimento’’, para baratear custos com transportes e, assim, dar maior competitividade à soja nacional.
‘‘Queremos que o Brasil seja o maior produtor de soja e de carne bovina do mundo, mas obras de infra-estrutura, como estradas, ferrovias e hidrovias, sem o planejamento adequado, podem levar ao desmatamento de nossas florestas, poluição e inviabilizar a navegação em nossos rios’’, diz Álvaro Luchiezi Jr., técnico em Comércio Exterior e Meio Ambiente do WWF. Segundo Luchiezi, o desenvolvimento agrícola deve levar em consideração práticas conservacionistas.
‘‘As nascentes das três principais bacias hidrográficas brasileiras - Platina, Amazônica e São Francisco - estão localizadas no Cerrado. O mau uso do solo na região pode trazer consequências para outros ecossistemas do País’’, avalia Luchiezi.
Um exemplo do uso inadequado do solo, segundo o técnico do WWF, são as lavouras de soja na cabeceira do Rio Taquari, no norte do Mato Grosso do Sul. ‘‘As plantações causaram erosão e o assoreamento do rio, que resultaram em inundações no Pantanal. Para evitar as enchentes em suas propriedades, os fazendeiros dragam o leito principal do rio e acabam bloqueando seus afluentes. Com isso, diminuem a oxigenação da água e acabam matando os peixes, causando perda da diversidade do rio’’, explica.
Para Luchiezi, é perfeitamente possível produzir com menos impactos ambientais, desde que o planejamento seja feito juntamente com um macrozoneamento ecológico-econômico, que indique quais as áreas propícias para a agricultura e quais devem ser destinadas à preservação. ‘‘Não se deve construir uma estrada onde existe alto nível de biodiversidade, assim como não se deve plantar onde o solo não é favorável. A hidrovia é menos impactante do que a rodovia, mas não pode comprometer a biodiversidade’’, diz.

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