Produção de alimentos cresce 32% e bate recorde desde o real
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quarta-feira, 29 de março de 2000
Por Rosangela Capozoli 
São Paulo, 30 (AE) - A indústria bateu recorde na produção do volume físico de alimentos em fevereiro - mês historicamente considerado de fraco desempenho. A produção foi 32% maior sobre idêntico período de 1999. Desde a implantação do Plano Real, há seis anos, o setor desconhecia taxas desta grandeza.
O resultado não foi menor, tomando-se como base o mês de janeiro. Outra vez a produção surpreendeu com dois dígitos e o patamar subiu para 14,3%. Os bons frutos colhidos pela indústria não pararam aí. O volume dos últimos doze meses dobrou quando relacionado ao contabilizado no período imediatamente anterior: acréscimo de 6,9%.
Essa tendência de alta não teria sido novidade para o setor, não tivesse galgado patamares tão elevados. O ano abriu exibindo gordos números, época geralmente de vacas magras para a indústria alimentícia. Janeiro encerrou com um aumento muito além do projetado - 1% - e alcançou a casa dos 8,1% sobre o mesmo período do ano passado.
Diante de resultados tão otimistas, a previsão do economista da Associação Brasileiras das Indústrias Alimentícias (Abia), Dênis Ribeiro, chega a ser modesta. "Para 2000, o aumento deverá ficar em 4,5% ante os 3,5% obtidos em 1999, e o faturamento de US$ 74,6 bilhões cresce na mesma proporção", afirma. O marketing será contemplado com uma cifra substanciosa, algo em torno de US$ 1,2 bilhão.
Fatores - Juros baixos, maior volume de crédito injetado na economia, 21 dias úteis em fevereiro e sinais positivos da balança comercial são os fatores apontados pelo economista como responsáveis pela continuidade do incremento da produção física.
Desde meados de junho o setor passou a registrar bons resultados e a Abia refez para cima as contas. No início do ano passado a entidade trabalhava com a estimativa de crescer 0,1% ou cair 0,5%.
Nos últimos dois meses, ressalta Ribeiro, a indústria alimentícia gerou 7.500 novos postos de trabalho, fechando a folha de pagamentos com 763.500 empregados, ante 750 mil em dezembro de 1999, crescimento de 0,6% sobre 1998 (a Abia congrega 250 indústrias). Ribeiro frisa, no entanto, que o excepcional crescimento da produção se deu em bases baixas.
Entretanto, apesar de alguns resultados terem sido negativos em determinados períodos do ano passado, ainda assim foi um grande salto, como nunca vistos nos últimos seis anos. Por exemplo, fevereiro de 1999 fechou com queda de 2,8% sobre o resultado do mesmo mês do ano anterior. Voltando ainda mais atrás, a taxa se torna positiva 1,7%, em 1998 sobre fevereiro de 1997. Comparando idêntico mês com janeiro dos mesmos anos, o resultado é de queda de 5,3%; 7% e alta de 0,4%. Ou seja, os números obtidos no mês em análise são de fato altos.
Carnes - Neste bimestre, a campeã de produção da indústria ficou por conta da carne, com alta de 13,6% sobre os meses de janeiro e fevereiro de 1999. Indústrias de grande porte
como a Perdigão, 2ª no ranking de carnes industrializadas, confirmam o andamento de bons negócios desde o princípio de janeiro. A empresa fechou o ano com alta na produção física de 8 8% sobre 1998 e projeta crescimento mínimo de 10% para este ano. "É um excelente resultado e sobre uma base alta", afirma Antônio Zambelli, diretor de marketing.
O primeiro bimestre surpreendeu a Perdigão. "Teremos um ano atípico", prevê. Entre janeiro e fevereiro, as vendas subiram 12% sobre o bimestre anterior. "É um fato inédito", comemora.
Líder no setor de carnes industrializadas, a Sadia computou aumento de 10% no volume de negócios no bimestre sobre os mesmos meses do ano passado. "O aumento do salário mínimo será mais uma injeção na veia do setor", diz Luiz Gonzaga Murat Júnior, diretor de relações com o mercado. Na sua opinião, o ano fecha nesse patamar.
A vice-liderança foi conquistada pela área de laticínios com crescimento de 11,9% e seguida de óleos e gordura com 8,2%. O setor de conservas teve as vendas encolhidas 8,9% e massas e biscoitos viram os negócios minguarem 4,8% e 4,6%, respectivamente. Apesar de números negativos, Aladino Selmi, diretor superintendente do Pastífício Selmi, não tem do que se queixar. Vice-líder na fabricação de massas secas, dono das marcas Renata e Galo, garante que em 2000 o volume físico aumenta 30% sobre o anterior e o faturamento será acrescido de 15%. "Enquanto o mercado global estima crescer 6% a Selmi deverá ficar muito acima", comenta.
Investimentos - A indústria alimentícia tem sido contemplada com cifras elevadas de investimentos. "Os desembolsos têm sido constantes e sustentáveis todos anos, independente de boom", informa Antônio João Vialle Cordeiro, diretor sócio da Simonsen Associados, atuando há 34 anos no mercado.
Pesquisa de intenção de investimentos feita pela Simonsen mostra que há dez anos foram injetados US$ 2 bilhões na área, passando para US$ 15,3 bilhões em 1998, ou seja, alta de 665%. No ano passado o montante somou US$ 4,7 bilhões, que transformados em reais quase empatam. "A perspectiva para 2000 é de crescimento mínimo em torno de 15%", afirma.


