Paris, 25 (AE) - O chanceler alemão Gehard Schrooder, ao aceitar a demissão coletiva da Comissão Européia, havia dito que o sucessor de Jacques Santer teria de ser escolhido rapidamente, mas deveria ser um homem moralmente inatacável, um administrador moderno e determinado, podendo enfrentar os múltiplos e complexos desafios na direção desse que é um dos mais importantes blocos políticos e econômicos de todo o mundo.
Por isso, imediatamente as atenções concentraram-se no ex-presidente do Conselho de Ministros Romano Prodi, conhecido como o Jacques Delors italiano. Esse homem, em menos de dois anos conseguiu o que muitos consideravam impossível: fazer com que a Itália participasse do grupo inicial de países da União Européia em condições de adotar o euro no início do ano.
Prodi impôs ao povo italiano, sempre reticente com planos de austeridade orçamentária, um regime de cura econômica dos mais estritos, reformas de estruturas e sacrifícios, conseguindo também convencer os principais parceiros sociais.
Romano Prodi, o professor, como é chamado na sua cidade natal, Bolonha, só surgiu como figura do primeiro time entre os políticos italianos em 1995, apesar de ter sido ministro da Indústria no fim da década de 70. Prodi foi descoberto pelos eleitores italianos após a queda do governo de Silvio Berlusconi
durante as eleições legislativas antecipadas, quando alugou um ônibus e percorreu a Itália inteira buscando um contato direto com a população de seu país na expectativa de conciliar os inconciliáveis.
Com muita humildade, perseguiu, com sucesso, esse objetivo, organizando uma coalizão entre o centro e a esquerda, mas isolando a direita populista de Berlusconi, fortemente desacreditada no país. Seu objetivo era criar e muito rapidamente uma nova Itália, capaz de alcançar o pelotão de países que lidera o processo de construção européia.
As qualidades de administrador do novo presidente da Comissão Européia foram reveladas, inicialmente, nas suas duas passagens pelo Instituto para a Reconstrução Industrial. Dessa forma, ele não teve problemas maiores em ser aceito pelos meios financeiros e industriais italianos quando assumiu a presidência o governo, liderando uma aliança de centro-esquerda. Mesmo seus adversários da direita empresarial reconhecem seu valor e admiram sua capacidade de ação.
Prodi é admirado também por sua extrema simplicidade, não aceitando as idéias dos marqueteiros da política e modeladores de imagens tão na moda hoje em dia. Seus detratores o qualificam pejorativamente de mortadela, uma alusão a essa especialidade culinária de Bolonha, mas o professor responde com bom humor: "Pelo menos, não me chamam de ladrão", o que tem ocorrido com tantos políticos nestes últimos tempos.
A honestidade facilitou sua aceitação pelo país num momento muito particular da Itália, quando a classe política e financeira estava envolvida até o pescoço em inúmeros escândalos de corrupção.
Agora, novamente, a honestidade de Prodi foi elemento determinante para sua escolha, após as inúmeras denúncias de irregularidades envolvendo alguns comissários europeus, fatos que provocaram a demissão coletiva da Comissão.
Essa honestidade é também política e ideológica. Romano Prodi rejeitou uma "combinazione a la italiana" que poderia permitir a sua permanência no poder. Ele não aceitou uma aliança com a direita italiana que lhe estendeu a mão quando foi abandonado pela Refundação Comunista. perdendo a maioria no Parlamento.
Em outros países, a tendência tem sido inversa. Os políticos, para permanecer no poder, procuram alianças com seus mais ferrenhos adversários.
Ultimamente, Romano Prodi vinha buscando formar uma nova aliança de centro-esquerda na Itália, aproximando-se de novos políticos, como o ex juiz antimáfia Antonio Di Pietro; Massiamo Cacciari, o prefeito de Veneza, e também do atual presidente do conselho, e Massimo DAlema. Este último, sem dúvida, é o político italiano mais satisfeito com a ida de Romano Prodi para Bruxelas,afastando-se da luta pelo poder no seu país.

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