Teresina, 10 (AE) - A Procuradoria da República vai pedir a quebra dos sigilos fiscal e bancário dos principais citados no dossiê do crime organizado no Piauí. O pedido deverá ser feito pelo procurador Tranvanvan Feitosa, o mesmo que solicitou a escuta telefônica que resultou em 321 fitas gravadas e no esclarecimento de como funciona um esquema criminoso que envolve coronéis da Polícia Militar, delegados, juízes, um promotor de Justiça e prefeitos.
Amanhã (11), o procurador-geral da República, Geraldo Brindeiro, reúne-se, em Teresina, com os procuradores Tranvanvan Feitosa e Roberto Almeida, transferido de Natal (RN) para acompanhar as investigações. Brindeiro é esperado às 23 horas de hoje. O encontro com os procuradores vai acontecer logo cedo e servirá para definir a estratégia do MP na investigação contra o crime organizado. Os procuradores vão contar com o apoio de mais homens da Polícia Federal que estão chegando a Teresina na quarta-feira. Um delegado e agentes especializados em investigações sigilosas vão juntar-se ao pessoal que já está na cidade. No total, 30 policiais estarão no caso.
Em Brasília, o deputado federal Wellington Dias (PT-PI) vai pedir amanhã ao presidente do Tribunal de Contas da União (TCU), Iran Saraiva, o envio de auditores para a capital piauiense. Ele afirma que o esquema de corrupção montado pelo crime organizado pode ter desviado milhões de reais de programas federais de educação, saúde, saneamento básico e habitação. Dias também vai encontrar-se com o secretário da Receita Federal, Everardo Maciel, para pedir o auxílio de fiscais no rastreamento de bens adquiridos pelos envolvidos nos crimes. "Há indícios muito fortes de enriquecimento ilícito", afirma o parlamentar.
O esquema de lavagem de dinheiro público envolve dezenas prefeitos do Piauí, Ceará e Maranhão. Eles compravam notas fiscais de empresas fantasmas criadas por pessoas ligadas ao coronel Viriato Correia Lima, que está preso "disciplinarmente" desde quinta-feira. "Esse esquema de corrupção desviou dinheiro federal e muita gente pode ter enriquecido ilicitamente", afirma Dias para justificar a necessidade do seu pedido de auditoria do TCU e da Receita. O deputado quer também a quebra do sigilo fiscal dos envolvidos.
Falsas - A falsificação de notas fiscais era feita com facilidade pelo esquema de Correia Lima. Tanto assim que o delegado Wilson Torres, o segundo na hierarquia do crime organizado, admite em uma das conversas gravadas, que comercializava as notas na sede da Associação de Delegados da Polícia do Piauí, da qual ele é o presidente. Só que a entidade funciona no prédio da Secretaria da Segurança Pública, no Centro de Teresina. "Ele deu uso indevido à sala, que nós já pedimos de volta", disse o secretário Carlos Lobo. Lobo, que aproveitou domingo para fazer a leitura do relatório produzido com as fitas das escutas telefônicas, admitiu que nada pode fazer para punir Torres. "Ele já estava afastado de suas funções porque é líder de classe", justificou. A única punição posível para o delegado será a destituição como presidente da entidade dos delegados. Uma assembléia geral para a destituição vai ser marcada esta semana. O secretário afirma que serão investigadas com maior intensidade as pessoas mais citadas no relatório do dossiê. Lobo vai nomear amanhã os delegados especiais que terão a responsabilidade de ajudar a Polícia Federal de investigar as denúncias.
O secretário Lobo era hoje a única autoridade da Segurança Pública estadual presente a Teresina. O governador Francisco Moraes Souza, o "Mão Santa" (PMDB) foi passar o feriado prolongado em Parnaíba, onde estava sendo programada uma festa popular para comemorar o aniversário dele, na terça-feira. Ele só deve voltar a Teresina na quarta-feira e vai ficar pouco tempo, porque pediu audiências ao presidente Fernando Henrique e ao ministro da Fazenda, Pedro Malan, na quinta e sexta-feiras.

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