Fortaleza, 14 (AE) - Pelo menos dois procuradores da República no Ceará reclamam de pressões que recebem das forças políticas do Estado para que não apurem e denunciem as mazelas de alguns grupos empresariais envolvidos com o narcotráfico e a lavagem de dinheiro. Segundo estes procuradores, que por enquanto não querem os nomes publicados, as pressões são feitas de várias formas.
As pressões são feitas por intermédio de declarações de autoridades públicas sobre o modo de atuar do Ministério Público. Segundo estes procuradores, os políticos falam que o Ministério Público é radical quando quer apurar os fatos. O próprio Ministério Público já estaria ficando dividido em Fortaleza, entre os que querem mais aprofundamento nas investigações e os que não querem.
Um procurador que denunciou um grupo econômico poderoso no Ceará disse não esperar qualquer pronunciamento da Justiça Federal. Este procurador reclamou que a Polícia Federal no Estado demora até seis anos para investigar casos com excesso de provas e evidências de lavagem de dinheiro com a participação de empresários do Ceará. Uma denúncia contra juízes do Ceará chegou à CPI do Judiciário em Brasília, mas não será apurada.
Delegados da Polícia Federal no Ceará reclamam da falta de estrutura para apurar o crime de lavagem de dinheiro. Um delegado disse que a PF no Ceará não fazia o cruzamento de todos os crimes ocorridos em Fortaleza com outras ocorrências no País. Desta forma, admite o próprio delegado, a investigação é feita de forma "isolada". Um crime de lavagem de dinheiro, por exemplo, pode virar crime de falsa identidade sem a apuração das ligações com o narcotráfico.
O caso do empresário Alexander Diógenes Ferreira Gomes, envolvido em denúncia de lavagem de dinheiro, é simbólico. O empresário colocou US$ 615 mil em um carro forte no Rio e enviou para Fortaleza. A operação foi denunciada há oito anos, dificultando o rastreamento do dinheiro no Rio. Em 1994, outra empresa de Gomes, a Accountur, realizou operações interbancárias de US$ 40 milhões. A Acctur realizou operações no valor de US$ 17 milhões em 1995. Agora aparecem fortes indícios de envolvimento de mais de 50 empresas no esquema de lavagem.
Todas estas operações são realizadas em alguns minutos. Muitas deixaram rastros, como nomes e identidades falsas, com envolvimento das empresas de Alexander. Todas estas empresas, mesmo descredenciadas pelo Banco Central, continuam funcionando. A Acctur está aberta, recebendo novos clientes.
Agilidade - O crime organizado tem mecanismos bem mais ágeis que as instituições. A procuradora de Justiça dos Estados Unidos, Janet Renno, em uma viagem ao Brasil há mais de um ano, propôs a chefes do Ministério Público da América do Sul a criação e uma espécie de "tribunal" eletrônico para o julgamento de casos que necessitam de urgência.
Renno se referia ao poder de mobilidade do crime organizado no País. Nos Estados Unidos, há registros de operações de lavagem de dinheiro feitas em poucos minutos, nas quais os bandidos circulam o dinheiro por mais de 20 países. Uma operação destas no Brasil exigiria o envio de cartas rogatórias para cada um dos 20 países, para pedir a investigação do percurso do dinheiro. Cada carta rogatória demora em média um ano para ser respondida.
No Brasil, a PF envia a carta rogatória ao Ministério da Justiça, que envia ao Ministério das Relações Exteriores, que envia à área diplomática do respectivo País, que envia ao respectivo Ministério do Interior ou Justiça, que envia à Polícia local. Depois o trâmite segue o sentido inverso. Uma carta rogatória que a Divisão Antimáfia entregou ao Ministério das Relações Exteriores do Brasil em janeiro deste ano chegou à Polícia Federal somente no mês passado.

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