Rio Branco, 13 (AE) - Os procuradores estaduais e federais do Acre pedirão a prisão preventiva de mais de 50 pessoas acusadas de estar envolvidas com o grupo de extermínio e o narcotráfico, na maior e mais promissora investigação criminal realizada no Estado. Há poucos anos, uma apuração dessas seria impensável.
A situação no Acre parece estar mudando. "Nunca pensei que fosse ver os grandões chegando no banco de trás dos carros de polícia", disse, cauteloso, um comerciante que preferiu não revelar o nome. "Falar eu falo, mas acho que ainda é melhor não dar o nome não", prosseguiu o vendedor. Desde que a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Nacotráfico iniciou as investigações, mais de 30 pessoas foram presas e o processo continua avançando.
"O povo do Acre está aprendendo a se libertar do medo"
resume o governador Jorge Viana (PT). Nos últimos anos, estava sendo registrado o número de 130 vítimas de homicídios a cada 12 meses. Este ano, o número de homicídios deve sofrer uma redução de cerca de 40%. "Não dá para comemorar, mas já é um começo", comentou Viana. E tudo indica que as apurações devem prosseguir.
O Ministério Público Estadual tem quatro inquéritos praticamente concluídos e, junto com a denúncia, pedirão que cerca de 20 acusados sejam preventivamente detidos. Na esfera federal, os procuradores devem pedir a prisão preventiva de 35 pessoas acusadas de envolvimento com o narcotráfico - a maioria dos nomes que constam dessa lista já tiveram a prisão temporária decretada.
E o Poder Judiciário local tem correspondido às proposições dos procuradores. Na semana passada, o Tribunal Regional Eleitoral (TRE) e o Tribunal de Justiça do Estado (TJ) acataram denúncias por crime eleitoral e homicídio contra o ex-deputado federal Hildebrando Pascoal e várias outras pessoas. Com essas decisões, Hildebrando está sendo processado em todas as esferas judiciais - já responde a dois processos criminais e outro por sonegação fiscal na Justiça Federal. "Temos quatro denúncias em fase de acabamento e várias outras em andamento, com diversas pessoas envolvidas", disse o procurador-geral do Estado, Edmar Azevedo Monteiro.
"Imagino que o número de pessoas envolvidas com o esquadrão e o narcotráfico pode chegar a 60 ou 70 pessoas", previu o procurador federal Luiz Francisco Fernandes de Souza, que passou quase um ano investigando as denúncias na cidade.
Fernandes pediu intervenção federal no Estado em 1996, quando o mecânico Agílson Santos Firmino foi esquartejado, morto e jogado numa rua em frente a uma emissora de televisão local. Na época, o pedido foi negado pela Procuradoria-Geral da República.
Passado - Os desmandos cometidos não eram comentados tão abertamente num passado recente, chegando a se confundir com as histórias da família. Em 1983, o sub-tenente da PM e irmão de Hildebrando, Itamar Pascoal, matou a tiros o capitão do Exército Moacir José da Silva. O crime ocorreu num cruzamento próximo à ponte sobre o Rio Acre, no bairro do 2.º Distrito.
O motivo foi uma discussão entre Itamar e o oficial do Exército, que era médico e administrava a maternidade da cidade. A maternidade era o único local onde havia banco de sangue e anticoagulante. O capitão não teria concordado em deixar Itamar sair com um saco de sangue para a sua mãe, Amoty, acometida por um tumor cerebral. A mãe de Hildebrando morreu, supostamente por falta de anticoagulante. O oficial pagou com a vida. Itamar foi inocentado por unanimidade no Tribunal do Júri. "O Itamar matou mesmo e disse ao juiz que, se o cabra ressuscitasse cem vezes, mataria 101 vezes", admitiu o deputado estadual e irmão de Hildebrando, Cosmoty Pascoal (PPB). "Não negamos o que fazemos, nós assumimos", completou.
Em 1996, Hildebrando espalhou cartazes oferecendo uma recompensa de R$ 50 mil para quem indicasse o paradeiro do dono de uma mecânica chamado José Hugo. Ele assassinou o irmão do ex-deputado federal, Itamar Pascoal.
Magistrados e promotores reuniram-se para discutir a medida e foram surpreendidos por Hildebrando, que os ameaçou caso tentassem impedi-lo de alcançar o seu objetivo. Hugo foi queimado e encontrado morto no Piauí.
Jornal - Na eleição de 1998, Hildebrando exibiu novamente o seu poder e a sua valentia. Invadiu a redação de um jornal local e exigiu o nome do autor de uma reportagem sobre o patrimônio dos candidados, da qual não havia gostado nem um pouco.
Desancou a repórter quando ficou sabendo quem havia escrito o texto. O fato entrou para o folclore da cidade e ganhou detalhes de ficção. Na cidade, comenta-se que o ex-parlamentar teria feito a jornalista comer o jornal no qual havia sido publicada a reportagem. Na verdade, houve apenas uma bronca.
Além da liberdade de expressão, o Estado começa a libertar fantasmas do passado. Há vários inquéritos antigos, arquivados por motivos diversos, que começam a ser verdadeiramente descobertos e investigados.
"Há muitos inquéritos que ficaram paralisados", admitiu o procurador-geral Edmar Azevedo Monteiro. "O problema é que o Estado estava praticamente sendo gerenciado pela quadrilha, portanto, não havia como fazer as investigações necessárias", explicou.

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