Procuradores definem estratégia para investigar empresa
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 13 de abril de 2000
Por Fausto Macedo 
São Paulo, 14 (AE) - Durante reunião na sede do Ministério Público Federal (MPF), em São Paulo, os procuradores José Ricardo Meirelles e Karen Louise Kahn acertaram hoje com o delegado-chefe da Polícia Internacional (Interpol) no Brasil, Ademir Alves, uma estratégia para obter a colaboração do FBI - a Polícia Federal dos Estados Unidos - e tornar ágil a liberação de cópias de documentos bancários e fiscais referentes à Telemarketing Financial Corporation, estabelecida na Flórida.
A Procuradoria da República e a Interpol querem tentar identificar a suposta ligação entre os empreiteiros Fábio Monteiro de Barros Filho e José Eduardo Correa Teixeira Ferraz - da Construtora Ikal - e os empresários Oscar de Barros e José Maria Teixeira Ferraz, que estão presos em Miami desde o dia 31.
A Interpol vai pedir, inicialmente, que seja tomado o depoimento de uma testemunha que reside em Miami, mas cuja identidade está sendo mantida em sigilo. Os procuradores suspeitam que parte dos R$ 169 milhões desviados das obras do Fórum trabalhista de São Paulo pode ter sido remetida para o exterior por meio de operações conduzidas pela Telemarketing, uma empresa de fachada. Barros e Maria Teixeira Ferraz são sócios dessa empresa, que teria sido aberta exclusivamente para lavar recursos de origem ilícita.
Segundo autoridades norte-americanas, uma operação - no montante de US$ 500 mil - foi executada entre outubro e novembro de 1998 a mando do narcotráfico. Para Meirelles, o detalhe que reforça a suspeita sobre envolvimento dos empreiteiros da Ikal - contratada para construir o fórum por meio de licitação fraudulenta, segundo ação judicial movida pelo MPF - com a Telemarketing é o fato de que José Maria Teixeira Ferraz é irmão de Eduardo Teixeira Ferraz. "Não acreditamos em coincidências"
observou Meirelles. "Os responsáveis pelo desvio dos recursos da obra do Fórum teriam de lavar esse dinheiro em algum lugar e a pista pode estar aí."
José Maria Teixeira Ferraz e Barros estão foragidos desde 28 de fevereiro. Acusados de estelionato, transferência ilegal de divisas e lavagem de dinheiro, os dois empreiteiros tiveram prisão decretada pelo juiz Casem Mazloum, da 1.ª Vara Criminal Federal. Segundo denúncia da procuradora Karen Louise, os dois foragidos teriam enviado US$ 3,29 milhões para Miami por meio de uma operação de câmbio ilegal.
Em outras duas ações penais, José Maria Teixeira Ferraz e Barros têm a companhia do juiz Nicolau dos Santos Neto, ex-presidente do Tribunal Regional do Trabalho (TRT) de São Paulo e principal envolvido na contratação da Ikal. Auditoria da Receita Federal e do Banco Central (BC) permitiu a descoberta de remessas feitas por Santos Neto - por meio de uma agência do antigo Banco Noroeste em São Paulo - no valor global de US$ 12,7 milhões para aplicações e contas na Suíça, Miami e Ilhas Cayman. Santos Neto também adquiriu imóveis na Flórida, em nome da Hilside Trading. Os procuradores da República querem convencer a Justiça norte-americana sobre a necessidade de bloquear os bens e ativos financeiros do ex-presidente do TRT como garantia para futuro ressarcimento dos prejuízos causados ao Tesouro brasileiro com a obra do Fórum.
"Tudo aponta para um elo muito forte entre os irmãos Ferraz, a Telemarketing e o desvio de recursos do TRT ", afirmam os procuradores. A partir dessa suspeita, eles vão pedir ao procurador federal na Flórida Joseph Capone que libere dados eventualmente protegidos pelo sigilo para instruir a investigação no Brasil.
Mesmo foragido, Eduardo Teixeira Ferraz desafiou a Polícia Federal (PF) - encarregada de prendê-lo - e, no início da semana, enviou fax para o FBI, Ministério Público e jornais, afirmando não possuir "qualquer participação" na Telemarketing. Ele também garante que nunca teve "contato" com Barros. "Não o conheço, nunca conversei e nunca tive nenhum negócio com este sr." Na avaliação de Meirelles, o gesto de Eduardo Teixeira Ferraz "é muito sintomático, um indício de que ele se desesperou com a descoberta sobre a Telemarketing".
Há suspeitas sobre eventual relacionamento de Barros com antigos dirigentes da MetroRED do Brasil, especializada em construção e instalação de redes de fibra ótica. A MetroRED, controlada pela norte-americana Fidelity Investments, estaria envolvida em suborno de servidores da Prefeitura de São Paulo. Hoje, o promotor de Justiça da Cidadania Saad Mazloum enviou ofício à Junta Comercial pedindo cópia dos estatutos sociais da MetroRED. Outro ofício foi encaminhado à Secretaria de Vias Públicas da Prefeitura questionando sobre contratros com a MetroRED ou autorizações para realização de obras e serviços.


