Procurador recebe ameaça por telefone
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 28 de abril de 1999
Por Wilson Tosta e Gustavo Alves 
Rio, 29 (AE) - O procurador da República Davy Lincoln, um dos integrantes do Ministério Público Federal que acompanham as investigações sobre suposto favorecimento a bancos privados na crise da desvalorização do real, está recebendo ameaças. Sem dar detalhes, ele contou ter recebido um telefonema ameaçador à 1h de hoje em sua casa. O nome de Lincoln consta da lista telefônica. Ele procurou minimizar o episódio: "Todo dia tem procurador aqui recebendo ameaça", afirmou.
O procurador Artur Gueiros, que também acompanha as investigações, a cargo da Polícia Federal, considerou "grave" a informação de que o colega estava sendo ameaçado. Segundo ele, as providências tomadas no caso são de caráter sigiloso. Durante a semana, uma pessoa ligada a Lincoln já recebera um telefonema anônimo, mas, ao perceber que não conhecia o interlocutor, desligou, cortando a conversa antes da provável ameaça.
O Ministério Público Federal recebeu com estranheza a resposta do Banco Central a seu pedido de informações sobre as operações de socorro aos bancos Marka e FonteCindam. O BC informou que se baseou em um parecer jurídico oral -o que é incomum nestes casos- e apenas no inciso 3 do artigo 11 da lei 4.595/64, que rege o sistema financeiro. O inciso diz que cabe ao BC "atuar no sentido do funcionamento regular do mercado de câmbio e da estabilidade relativa das taxas de câmbio e do equilíbrio da balança de pagamentos, podendo, para esse fim, comprar e vender ouro e moeda estrangeira, bem como realizar operação de crédito no exterior e separar os mercados de câmbio e comercial".
Em sua resposta ao pedido do MPF, o BC apontou como responsáveis pelo voto que autorizou a homologação das operações de socorro o seu presidente na ocasião, Francisco Lopes, e os diretores Demósthenes Madureira de Pinho, Carlos Tavares, Cláudio Mauch, Paolo Zaghen e Sergio Darcy.
O procurador Artur Gueiros considerou inusitada a informação, divulgada hoje, de que o Banco Marka continuou a operar no mercado até o dia 22 de janeiro, mesmo tendo recebido ajuda do BC no dia 14. "Pelo que sabemos, uma das cláusulas da negociação era o banco simplesmente desaparecer", disse ele. O procurador defendeu que a informação seja investigada pela CPI dos Bancos ou, se a PF considerar pertinente, pelo inquérito policial. Cauteloso, o procurador evitou especular sobre que tipo de crime poderia ser tipificado, nesse caso.
"No plano hipotético, seria indício de má-fé", afirmou ele. "Você se compromete a receber uma ajuda sob a condição de sair do mercado e continua atuando; no mínimo, é uma atitude de má-fé do senhor (Salvatore) Cacciola (dono do Banco Marka)."


