Brasília, 10 (AE) - Assim que receber do Superior Tribunal Militar os autos originais do Inquérito Policial Militar arquivado, o procurador-geral da Justiça Militar, Kleber de Carvalho Coelho pedirá ao Ministério do Exército a reabertura do caso Riocentro. Ele afirmou hoje que o IPM não apurou a verdade e diante das "provas novas irrespondíveis" se deve instaurar um novo inquérito para investigar a explosão da bomba no colo do sargento Guilherme Pereira do Rosário, dentro de um carro, no Riocentro, durante show em comemoração ao Dia do Trabalho, há 18 anos.
Coelho está pedindo ao STM os originais do inquérito por causa de exames e do laudo cadavérico do sargento morto na explosão. "Não há crime sem prova material", justifica. Com base em leitura dos autos do IPM e também em um estudo de criminalística feito pelo perito Antônio Carlos Villanova, o procurador-geral concluiu que o relatório do IPM arquivado contrasta com as perícias do local onde houve a explosão e com o laudo cadavérico. "O encarregado do IPM (coronel Job Lorena de SantAnna) não pode ou não quis investigar profundamente o caso", diz o procurador, que classifica o relatório do coronel de "fantasia deliberada".
Mesmo reconhecendo o fato delituoso, o IPM acabou arquivado por não ter encontrado "elementos ou até indícios" para identificar o responsável pela explosão. A versão oficial do IPM dizia que "grupos radicais de esquerda", como o VPR e o MR-8, ou o da direita, Comando Delta, teriam colocado a bomba no carro enquanto o então capitão Wilson Luiz Chaves Machado e o sargento não estavam no local.
Segundo essa versão, o sargento estaria tentando retirar a bomba, que teria sido colocada entre o banco e a porta do carro, quando ela explodiu. "Mas o laudo cadavérico prova que a bomba explodiu no colo do sargento", afirmou o procurador-geral militar.
Em 70 dias, desde que recebeu do procurador-geral da República, Geraldo Brindeiro, pedido da Comissão de Direitos Humanos da Câmara solicitando a reabertura do caso Riocentro, o procurador Kleber Coelho fez diligências e ouviu 11 militares, incluindo o próprio capitão sobrevivente, hoje graduado como coronel, e o general Newton Cruz. A Comissão de Direitos Humanos lembra que o atentando colocou em risco a vida de 10 mil pessoas e denuncia que houve manobras para evitar a verdade.
Responsáveis - O procurador Kleber Coêlho está convencido de que integrantes do Destacamento de Operações e Informações (Doi-Codi) , insatisfeitos com a abertura política no País e a perda de prestígio e de orçamento, tentavam demonstrar que continuavam necessários. Eles planejaram mais uma "operação presença" que foi a explosão da bomba no Riocentro.
O capitão Wilson Machado, ouvido pelo procurador Coelho, negou autoria. "Tenho indícios veementes de que ele estava envolvido no propósito de explodir a bomba", garante o procurador que ouviu do general Cruz que integrantes do Doi-Codi "estavam inconformados com o abandono que sofriam" e que estavam "inclinados a agir por conta própria". Um oficial, segundo o general, sabendo dos planos de explosão de bomba no Riocentro teria convencido os envolvidos a jogar o artefato contra a parede da casa de força. Mas o capitão e o sargento teriam decidido executar o plano inicial.
O general contou ainda que muito tempo depois recebeu informação de que um "novo ato de presença" seria realizado no Rio de Janeiro. Ele disse que mesmo não fazendo parte de sua obrigação foi até um hotel em Copacabana para reunir-se com um sargento e um tenente. "E lhes disse que se algo parecido novamente ocorresse, eu ira averiguar e denunciar", relatou o general.
Conspiração - Apesar de montar a sua versão, reconstituindo a história a partir do coronel Wilson Machado, o procurador-geral militar não descarta a tese de "conspiração" e envolvimento de militares com patentes mais altas. Se houver algum general envolvido, o caso deverá ser investigado pelo Supremo Tribunal Militar. Caso contrário, ficará nas mãos de uma nova auditoria para investigações.
Em cinco outras oportunidades desde o resultado do IPM, autoridades já tentaram reabrir o caso Riocentro, mas sem sucesso. O sargento foi enterrado com honrarias e o capitão continuou sua carreira militar. Agora, o procurador-geral acredita ser possível saber o que realmente aconteceu na noite de 30 de abril de 1981, pela posição favorável do comandate do Exército Gleuber Vieira.
Nas consultas informais ao ministro Coelho percebeu que há interesse do Exército em solucionar o caso. "Não tenho procuração dos militares, mas sei que é o pensamento do Exército", disse. Na visão do procurador, a Lei da Anistia que beneficiou tanto os perseguidos pelo regime como os militares não atrapalha a investigação do crime violento ocorrido no Riocentro, que pode ser classificado de "homicídio qualificado"por causa da apresentação de novas provas e porque o caso ocorreu depois de agosto de 1979, data máxima para perdão da culpa de crimes relacionados a fatos políticos. Ele avalia que a prescrição da pena somente ocorrerá em abril de 2001.

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