Procurador-geral encaminha denúncias a secretaria
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quinta-feira, 23 de março de 2000
Por Eliane Azevedo 
Rio, 24 (AE) - Em nota oficial, o procurador-geral de Justiça do Rio, José Muiños Piñeiro Filho, garantiu hoje que as denúncias contra policiais civis feitas pelo traficante Luiz Fernando da Costa, o "Fernandinho Beira-Mar", à promotora Márcia Velasco, da 3.ª Central de Inquéritos, foram encaminhadas por ele à Secretaria de Segurança Pública do Estado e dois inquéritos estão abertos para apurar o caso. Piñeiro afirmou não ver "idoneidade moral" no traficante para questionar a ação da promotora.
O procurador lembra que o trabalho de Márcia resultou numa ação penal contra 39 pessoas, das quais 22 estão presas - entre elas, parentes de "Fernandinho Beira-Mar". Piñeiro deixou claro que a tentativa do traficante de inocentar alguns policiais - como os detetives afastados José Luiz Magalhães e Ricardo Wilke - será um tiro pela culatra.
"Aliás, suas declarações em favor de alguns policiais civis se constituem em provas excelentes a serem utilizadas pelo Ministério Público (MP) contra os mesmos."
Quando telefonou, em 18 de novembro, para a promotora, "Fernandinho Beira-Mar" tinha duas motivações explícitas. Uma, incriminar os detetives Carlos Coelho Macedo e Alexandre Faria, da Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE). Outra, convencer a promotora a revogar a prisão preventiva contra ex-mulheres, irmãs e outros parentes dele.
Na lógica exposta pelo traficante, ele achava normal ser extorquido por policiais. "Sou um bandido e minha liberdade tem preço", disse à promotora. Mas Macedo e Faria, segundo ele, começaram a agir contra membros da família dele para aumentar os valores da propina. Na narrativa de "Fernandinho Beira-Mar" a Márcia, os problemas iniciaram-se com o sequestro de uma ex-namorada dele, Joelma Carlos de Oliveira, e de um dos seguranças, José Aílton do Nascimento.
O traficante contou que os dois foram pegos por Macedo, Faria e o agente federal Luís Benício Ramos Privat, mais conhecido como "Luisinho". Enfurecido, "Fernandinho Beira-Mar" mandou entregar uma fita na DRE ameaçando os policiais. "Vocês querem guerra, vão ter guerra", dizia, em sua versão. "Vou botar tudo na imprensa." Mas negociou um resgate de R$ 40 mil, à prestação. Semanas depois, foi a vez de outra ex-namorada, Deise Valéria Batista, apontada como tesoureira da quadrilha, ser sequestrada pela dupla, segundo o traficante.
A gota dágua teria sido o sequestro de dois primos de "Fernandinho Beira-Mar", levados da favela onde moravam por Macedo e Faria, de acordo com a conversa gravada com a promotora. De início, os policiais teriam pedido um resgate de R$ 1 milhão. Foi quando o traficante decidiu denunciar as extorsões que estava sofrendo para a Polícia Federal (PF). "Falei com um dr. Vítor e dr. Bório", contou na fita.
O delegado Aldeir Bório é o responsável pela área de entorpecentes na PF do Rio e uma gravação dele com "Fernandinho Beira-Mar" foi divulgada.
Mas "Fernandinho Beira-Mar" negociou novamente: pagou R$ 300 mil - e, segundo disse à promotora, obteve a garantia de que os parentes não seriam incluídos no processo. Macedo e Faria eram encarregados da investigação e foi o inquérito da DRE que deu origem aos mandados de prisão contra as ex-mulheres e irmãs do traficante.
Na avaliação do MP, este é o motivo pelo qual Macedo, Faria e "Luisinho" passaram a ser acusados de extorsões que, dois meses antes, nas fitas gravadas por escuta pela PF, "Fernandinho Beira-Mar" atribuía aos detetives José Luiz Magalhães e Ricardo Wilke. Na conversa com a promotora, o traficante não esconde a estratégia, dando como exemplo o caso do detetive Antonio Carlos Cypriano Melo, da Delegacia de Homicídios, também acusado de o extorquir. "O Cypriano defendeu-me na frente dos caras, disse que eu estava certo, que não tinha de mexer com a minha família", disse. "Por que vou acusar o cara?"
Macedo e Faria estão presos no Rio, acusados de extorsão contra outro traficante. "Luisinho",lotado na Superintendência Regional da Polícia Federal (PF) em São Paulo, está afastado e sofre uma investigação por suspeita de ter usado diploma falso para poder fazer o concurso da PF. Ele ingressou na polícia em dezembro, por mandado judicial: segundo informações da Direção-Geral da PF, "Luisinho" não passou no teste psicotécnico.


