Jerusalém, 28 (AE-AP) - A obrigação moral de Israel de ajudar a derrotar um processo judicial contestando a amplitude do Holocausto sobrepõe-se a fortes temores envolvendo a divulgação das memórias do cárcere do líder nazista Adolf Eichmann, disse hoje (28) o procurador-geral israelense.
O documento de 1.300 páginas já está a caminho do advogado de defesa da professora americana Deborah Lipstadt, que acusou o historiador britânico David Irving de negar o genocídio nazista.
A manuscrito também será divulgado pela primeira vez ao público em Israel na terça-feira, informou à AP o arquivista estatal israelense Evyatar Friesel.
Os israelenses haviam inicialmente planejado entregar as memórias de Eichmann, guardadas por três décadas nos arquivos estatais, para um instituto de pesquisa alemão para publicação, um processo que poderia levar meses, talvez anos.
Mesmo tal decisão foi tomada com relutância, depois de um dos filhos de Eichmann, Dieter, ter ameaçado entrar com uma ação legal para que o livro fosse declarado propriedade da família. Até agora, apenas poucos acadêmicos viram as memórias.
Algumas autoridades israelenses têm expressado preocupação de que o documento possa cair em mãos erradas e que as passagens usadas ao bel-prazer poderiam ser aproveitadas por aqueles que negam o Holocausto.
Amos Hausner, cujo pai, Gideon, processou Eichmann, questionou se era uma boa idéia usar o documento num tribunal.
"Ainda temos muitos sobreviventes do Holocausto entre nós, eles podem testemunhar sobre as câmaras de gás", afirmou Hausner, ele também um advogado, numa entrevista por telefone. "Mas ao invés de acreditar nessas pessoas, pegamos um documento de um criminoso nazista (escrito) antes de ele ser executado".
Mas historiadores do Holocausto vêm há muito pedindo acesso imediato e ilimitado ao documento - que agora terão.
Irving está processando Lipstadt por difamação na Grã-Bretanha por ter escrito num livro de 1994 que ele negou o Holocausto e distorceu a verdade sobre o que ocorreu na Segunda Guerra Mundial.
Irving diz que ele não nega que judeus foram mortos pelos nazistas, mas contesta o número e a forma das mortes de judeus nos campos de concentração.
Lipstadt, uma professora da Universidade de Emory, em Atlanta, e sua co-acusada Penguin Books, negam a acusação de difamação.
Israel espera que as memórias ofereçam mais provas do sistemático assassinato de judeus pelos nazistas, assim como a amplitude do genocídio. No julgamento, Irving contestou declarações historicamente aceitas de testemunhas dando conta que centenas de milhares de judeus morreram em câmaras de gás no campo de concentração de Auschwitz, na Polônia ocupada pelos nazistas.
"Achamos que como parte da obrigação e compromissos de Israel como Estado judeu, todos nós sendo sobreviventes de fato do Holocausto, sentimos que temos de permitir que o público tenha acesso ao que foi escrito", disse o procurador-geral israelense, Elyakim Rubinstein, a repórteres hoje.
Eichmann escreveu o diário enquanto na prisão de 1961 a 1962, depois que agentes israelenses o capturaram na Argentina e o levou para ser julgado em Israel. Ele foi enforcado em 1962.

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