Paris, 10 (AE) - Um dia a história da França vai registrar que um luxuoso imóvel da Rue de Lille, em Saint Germain de Prés, provocou a queda da quinta personalidade da república, o presidente do Conselho Constitucional e ex-ministro do Exterior, Roland Dumas, envolvido num rumoroso caso de corrupção, onde se mistura poder, sexo, comércio (venda de fragatas a Taiwan) e muitas mentiras.
Isso porque, o procurador de Paris, Jean Pierre Dintilhac, no seu ato de acusação, redigido num tom severo e dirigido aos juízes de instrução Eva Joly e Laurence Vichnievsky, está solicitando o comparecimento de Dumas diante de um tribunal penal para responder por "cumplicidade e abuso de bens sociais".
Ele teria incitado o grupo petrolífero Elf (na época estatal) a contratar sua ex-amante, Christine Deviers-Joncour, pagando salários e vantagens injustificadas, além da compra de um apartamento numa das áreas mais nobres de Paris pela quantia de US$ 2,8 milhões.
No ato acusatório, um documento de 90 páginas, o procurador francês afirma que "está claramente estabelecido que Roland Dumas sabia que os fundos dos quais tirava proveito e o apartamento que utilizava tinham origem fraudulenta", insistindo também "na vontade deliberada de Roland Dumas de induzir a Justiça ao erro, por meio de meias-verdades e verdadeiras mentiras". Para o procurador, o ex-ministro, durante toda fase de instrução do processo, demonstrou também "um desejo deliberado de dissimulação, acumulando contradições face às evidências."
O advogado de Dumas, Jean René Farthouat, manifestou sua indignação pelo fato de não ter sido respeitado nem o segredo de instrução, com a publicação do ato acusatório, nem a presunção de inocência, pois o ex- ministro não foi ainda julgado.
Diante dessa nova e dura ofensiva da Justiça contra Dumas, os observadores não imaginam como ele poderá resistir sem pedir demissão da presidência do Conselho Constitucional - organismo que julga a constitucionalidade das leis votadas pelo Parlamento. Seus colegas de Conselho, entretanto, não parecem convencidos disso e acreditam que ele poderá fazer manobrar para permanecer no cargo, enquanto não for julgado definitivamente.
O ex-ministro do Exterior do presidente François Mitterrand e um dos guardiães de sua memória, em comunicado divulgado hoje afirmou que não passa de "bode expiatório" nessa história".
Estima-se em US$ 10 milhões o total das remunerações e comissões recebidas entre 1989-1993 por Christine do grupo Elf. Essas operações eram de conhecimento de Dumas, o que caracteriza a jurisprudência existente sobre receptação e abuso de bens sociais na França. Coincidência ou não, a medida que depósitos eram feitos na conta suíça de Christine, outros foram feitos, em dinheiro, em contas do ex-ministro na França. Segundo a acusação
Dumas não conseguiu justificar esses depósitos, mesmo tendo alegado honorários antigos de advocacia, venda de obras de arte e heranças recebidas.

mockup