José Cordeiro/Agência EstadoCalvário paulistaDurante a procissão, moradores de rua de SP mencionaram a exclusão social e a tortura nas prisõesCerca de 300 moradores de rua participaram ontem da procissão da Sexta-Feira da Paixão, organizada pela Arquidiocese de São Paulo. A caminhada, no centro de São Paulo, teve início às 10 horas no largo São Bento e terminou às 12h20 na praça João Mendes, com a distribuição de lanches para os sem-teto.
Na procissão, organizada pelo padre Júlio Lancellotti, moradores de rua encenaram quatro quadros da paixão de Cristo. Em cada um deles, em pontos diferentes do centro, houve referência aos principais problemas enfrentados pelos moradores.
No largo São Bento, os fiéis encenaram o ‘‘Grande Julgamento’’, que mostra a condenação de Jesus, e fizeram alusão à ‘‘condenação atual dos pobres’’. A segunda cena, ‘‘Jesus diante dos Poderosos’’, foi representada na praça Patriarca. Os sem-teto fizeram menção à exclusão social que sofrem. No largo São Francisco, foi representada a ‘‘Tortura de Jesus’’. Houve referência à tortura ainda existente nas prisões brasileiras. Diante da Faculdade de Direito do largo São Francisco, os sem-teto cobraram de advogados, promotores e juízes ‘‘mais Justiça’’.
A quarta e última cena aconteceu na praça da Sé, nas escadarias da Catedral. O morador de rua Cícero Marques de Souza, 41, representando Jesus, foi ‘‘crucificado’’. Foram lembrados os massacres de sem-terra e de menores de rua. ‘‘Quisemos aproximar a paixão de Cristo à paixão do povo de rua’’, disse o padre Lancelloti. ‘‘Caso contrário, a dor de Cristo fica muito abstrata.’’
Armados de ovos e frutas podres, moradores do Cambuci, em São Paulo, vão descontar hoje todas as decepções que tiveram com os governantes ao longo do ano na tradicional malhação de Judas da Rua Lavapés. Ninguém é esquecido no Cambuci: o prefeito Celso Pitta, o presidente Fernando Henrique Cardoso e o governador Mário Covas assumem o lugar do apóstolo castigado pelo povo nas brincadeiras por ter entregado Jesus aos romanos por 30 moedas de prata.
Com o escândalo dos precatórios vindo à tona, o mais malhado será o prefeito, representado por pelo menos dois bonecos. Um dos mais animados era o mecânico Oswaldo Rodrigues das Neves, o Magrão, de 39 anos. Há 12 anos ele faz de sua oficina o ‘‘salão’’ do Judas, reunindo os vizinhos para confeccionar os bonecos de pano. Cinco já estavam quase prontos no fim da tarde de ontem.
Mas Magrão esmerou-se mesmo na confecção do boneco de Pitta, que carrega uma pizza na mão. ‘‘Essa história pode acabar em pizza lá, mas aqui no bairro, não.’’ Os vizinhos já têm sugestões para os dois bonecos ainda não identificados. Um candidato é o ex-prefeito Paulo Maluf, que já foi malhado em outros anos.

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