Quase dois anos depois de ter sido preso por conta de uma acusação que garante não ser verdadeira, o surdo-mudo Alexandre de Oliveira Pontes, 22 anos, ainda não consegue levar uma vida normal. Alexandre foi preso em fevereiro de 2007 acusado de tentativa de roubo e foi interrogado pela polícia sem a ajuda de um intérprete. Segundo o jovem, muitas palavras eram incompreensíveis no interrogatório feito por escrito e por isso ele teria ficado confuso. Ele pede agilidade no processo para poder conseguir trabalho.
Ontem, Alexandre e sua mãe, a servente Suleide Aparecida de Oliveira Pontes, estiveram em Londrina no escritório do advogado Reginaldo Monticeli para obter informações sobre o processo e não obtiveram boas notícias. Segundo Monticeli, o processo praticamente voltou ''à estaca zero'' depois que o depoimento do jovem foi anulado a pedido do Ministério Público pelo fato da intérprete de Alexandre não ter sido uma pessoa indicada pelo juiz.
''O depoimento foi anulado em dezembro e logo em seguida enviei ao juiz um pedido para dar prioridade no caso. Apresentamos uma defesa preliminar na qual pedimos a absolvição sumária, ou seja, caso o juiz entenda que não há provas suficientes para continuar mantendo ele como acusado, ele poderá voltar a ter sua ficha completamente limpa'', explicou o advogado. ''Isso tem sido o principal problema pra ele pois nem trabalho está conseguindo''.
Por meio de gestos, o jovem afirmou que só quer uma coisa na vida: se sentir livre. Atualmente, Alexandre vive com a mãe em Curitiba depois que conseguiu autorização do juiz, mas continua submetido a regras semelhantes às pessoas que vivem sob condicional: não pode ficar fora de casa após as 22 horas, tem restrições quanto a frequentar bares e não pode deixar a cidade que está morando. ''Ele não está estudando porque a aula é à noite e como a escola fica longe, ele não consegue chegar em casa antes das 22 horas. Ele fica o dia inteiro em casa ou vai pra uma lan-house'', lamentou a mãe.
De acordo com Suleide, desde que chegou em Curitiba, há pouco mais de um ano, o filho já tentou inúmeros empregos mas nenhuma empresa o contrata. ''Eles ficam sabendo que meu filho está sendo acusado de roubo e não dão emprego. É muito triste isso. Eu acho que não só para ele, mas todo surdo-mudo hoje pode correr o risco de viver a mesma coisa, pois se meu filho tivesse sido atendido por uma intérprete no dia que o acusaram talvez nada disso tinha acontecido'', desabafou. Alexandre ficou preso 14 dias no 2º Distrito Policial de Londrina e, segundo a mãe, passou por tratamento psicológico depois que saiu.
O processo está nas mãos do juiz Delcio Miranda da Rocha, da 2 Vara Criminal. A reportagem da FOLHA tentou entrar em contato com ele, mas o juiz está de férias e o processo só voltará a ser analisado quando ele retornar no final deste mês.

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