Carmem Murara
Mauro FrassonSem porteirasMachado: ‘‘Hoje, com a abertura do mercado, não interessa em que país esteja a fábrica. Onde se produz é irrelevante’’.FolhaO setor de telecomunicações foi o que mais sofreu modificações no Brasil, nos últimos 12 meses, com a privatização do Sistema Telebrás. De que maneira a privatização afetou a Siemens?
João Eber Guterres MachadoEste setor está no centro do furacão tecnológico. É uma das áreas mais dinâmicas da economia mundial. Mas a privatização no Brasil não nos pegou despreparados. A privatização significa que o mercado ficou mais aberto. Nós vamos negociar com empresas particulares, que podem optar em comprar ou trazer os equipamentos de qualquer país do mundo.
FolhaA competitividade aumentou muito?
MachadoNós temos que ter um produto altamente competitivo em termos tecnológicos. Tem de ser de última geração, o que há de melhor no mundo. E tem de ser competitivo em termos de custo. Temos que ter condição ainda de entregar a curto prazo, como exigem os clientes. E isso nós aperfeiçoamos nos últimos anos e de fato são as grandes exigências das empresas privadas.
FolhaA Siemens estava acostumada com o sistema público no setor de telecomunicações?
MachadoNós nós preparamos em todas as áreas, mas nos concentramos em quatro pontos específicos. O primeiro foi a organização. Tivemos que nos organizar muito, voltando nosso trabalho mais para os clientes e para o novo perfil deles. Os nossos produtos já eram atualizados, mas apertamos mais o passo e aumentamos a velocidade. Temos produtos hoje que não têm similar no mercado. Em alguns produtos, nós somos os primeiros a lançar em termos mundiais, aqui em Curitiba. A terceira grande mudança foi no segmento de processos e sistemas. Revisamos todos os processos para agilizar e simplificar. Nós, como empresa alemã, temos a mania de fazer tudo um pouco complicado demais. Funciona, mas é complicado. Por isso, temos que simplificar. Como último item, tivemos de mudar as pessoas. Treinamos nosso pessoal, internacionalizamos muita coisa. Aumentou nossa visão. Não pensamos mais só no Brasil, mas no mundo. Estamos trabalhando para nos tornarmos mais competitivos. E no ano passado, veio a recompensa. Nós ganhamos o Prêmio Nacional da Qualidade. O prêmio foi uma recompensa que ganhamos pelo trabalho feito nos últimos cinco anos, quando começamos a nos preparar para o processo de privatização.
FolhaPara os números da empresa, a privatização foi boa?
MachadoCom a privatização, a pressão sobre os preços é brutal. Então, significa que quem pode mais chora menos. Houve pressão brutal para achatamento dos preços. Logo, quem é mais competitivo e quem é mais ágil sobrevive.
FolhaNeste sentido, a reestruturação da Siemens foi vital?
MachadoO cliente que está na iniciativa privada tem outro perfil em relação ao Poder Público. Percebemos que precisávamos mudar. E vamos manter nosso crescimento e lucratividade. Vamos conseguir isso porque nos estruturamos, apesar de toda a situação econômica.
FolhaNo período que antecedeu a privatização, houve uma fase de estagnação do mercado para os fornecedores de componentes e para o setor de telecomunicações. A própria diretoria da Siemens declarou na época que sofria com a redução das vendas. Foi um dos momentos mais difíceis?
MachadoO governo parou de contratar porque ia entregar. E os novos donos não iriam contratar enquanto não tomavam pé da situação. Formou-se uma lacuna ruim para todos.
FolhaEsse período já acabou?
MachadoNós imaginamos que estamos no finalzinho deste período. Agora, vão ser retomadas as contratações. Mas, enquanto isso, todos os fabricantes nacionais enfrentam problemas seríssimos para manter as fábricas ocupadas.
FolhaDaqui para frente vai crescer o mercado?
MachadoEsperamos um crescimento brutal.
FolhaO setor de telecomunicação consegue passar ao largo da situação econômica do País? Não há um impacto nos negócios?
MachadoA Siemens, por estar há tanto tempo no mercado, já se considera brasileira. Se olhar aqui na empresa e procurar um alemão, não vai achar ninguém nem para fazer chá. Não tem alemão. Os executivos são todos brasileiros. E nós estamos acostumados às coisas aqui no Brasil. Sabemos que temos crise e que elas são passageiras. Para nós estava bastante claro que haveria a desvalorização cambial, em determinado momento. E por isso tomamos todas as precauções.
FolhaA desvalorização prejudicou muito os negócios da Siemens?
MachadoA desvalorização que houve encareceu os produtos importados, tornando-os menos competitivos. Para nós, isso foi interessante, pois fabricamos aqui. Temos um elevado produto com valor agregado nacional, que não sofreu o impacto do dólar. Quem importa produtos sofreu em 100% o impacto do dólar. Em segundo lugar, nós também gostamos de exportar. E ficou mais fácil para a gente vender produtos para o exterior. As exportações aumentaram e a gente nota isso pelo volume de consultas que temos tido nas últimas semanas.
FolhaPara quais países a Siemens exporta?
MachadoO setor de telecomunicações da Siemens e mais voltado para a exportação aos países da América do Sul, até por questão geográfica. Na parte de hidrogeradores e transformadores, vai para o mundo inteiro.
FolhaE no setor de importação. O que a fábrica tem de importar para viabilizar sua produção?
MachadoImportamos basicamente componentes. Neste ano, nós devemos usar 150 milhões de componentes, que têm de ser colocados de uma forma lógica nas placas que fabricamos. No Brasil, com toda a lei de informática, que não deu certo, sobraram apenas dois fornecedores de componentes. O resto tudo está na Ásia, que passou a ser o grande fornecedor de componentes. Quem fabrica componentes paga impostos para trazer os insumos que entram na fabricação deles. O pessoal de Manaus importa sem pagar tributos. Não há como competir. É uma competição, totalmente impossível. Isso foi acontecendo. Houve e ainda há falta de investimentos.
FolhaMas toda essa importação de componentes que a Siemens tem de fazer acabou encarecendo por causa do dólar?
MachadoCompletamente. O meu custo sofreu um impacto de 20% a 30% com a desvalorização do real, mas quem importa produtos acabados sofreu 100%. É aí que aumentou a minha vantagem em relação aos demais.
FolhaEntão, o senhor diz que a empresa se beneficiou com a desvalorização?
MachadoTanto para a exportação, que ficou mais fácil, quanto para o mercado interno, em que melhorou o poder de fogo sobre os importados.

FolhaEstamos numa economia desaquecida. O Grupo Siemens sente isso no dia a dia?
MachadoO PIB (Produto Interno Bruto) vai cair este ano, e com a queda, obviamente, há problemas. A ecomomia decresce e o desemprego aumenta. A massa salarial se reduz. Sem crescimento adequado e com desemprego, não se consegue dar à economia o dinamismo necessário. Um belo dia, não adiantará produzir automóveis, se não há quem compre.
FolhaHá uma necessidade urgente de se abrir a economia? Se o senhor estivesse no lugar do ministro da Fazenda, Pedro Malan, o que faria?
MachadoComo empresário, iria reduzir a participação do governo no bolo do PIB. A massa de tributos está em torno de 30% do PIB e não é suficiente, pois o governo gasta bem mais do que estes 30%. Se olharmos em direção da Argentina, vemos que lá o índice é de 20%, e no Chile menos ainda. Então, tem que reduzir. Tem de deixar o dinheiro fluir e girar em direção daqueles que têm condições de se tornar mais produtivos. Vide os Estados Unidos. Lá, a participação do governo se reduz cada vez mais e a iniciativa privada é o motor de todo o desenvolvimento.
FolhaO empresariado pede para que o governo federal promova o quanto antes o aquecimento da economia. Há algum avanço por parte do governo federal?
MachadoA economia brasileira estava amarrada. Uma das correntes que nos prendiam foi quebrada, que era o câmbio. A outra amarra é a taxa de juros, que tem de cair. Se estes dois itens estiverem de acordo, aí tem tudo para a economia deslanchar. Nós entraremos num círculo virtuoso: com juros mais baixos vão ocorrer mais investimentos, aumentará o giro da economia e conseguiremos mais emprego para o pessoal.
FolhaFalando de emprego. A Siemens teve de demitir?
MachadoNós temos um problema. As fábricas estão lutando pela sobrevivência. Temos de ser competitivos ou perco clientes que vão comprar no Japão e na China. Aí, eu fecho as portas. Temos que aumentar brutalmente nossa produtividade. E ela cresceu no mínimo 15% por ano. Para aumentar a produtividade, só há duas formas: ou eu cresço a produção com mesmo número de pessoas, ou, se não tenho como aumentar a produção, eu tenho de reduzir pessoal para alcançar a produtividade. Se não faço nenhuma nem outra terei de fechar as portas.
FolhaQuais as mudanças mais recentes da Siemens? Até pouco tempo, a fábrica de Curitiba se chamava Equitel.
MachadoA Siemens é antiga no Brasil. Os primeiros negócios da Siemens no Brasil datam da época de D. Pedro II. Foram instalados aqui as redes de telex ligando Rio de Janeiro a Petrópolis e depois ao Rio Grande do Sul. No início do século 19, ela se instalou como empresa no Brasil. A Siemens tem mais de 150 anos, com 400 mil funcionários, no mundo. Ela está em 190 países e de fato é uma potência internacional. O grande desafio é uma empresa tão grande se manter ágil e dinâmica. Para isso, só há uma grande alternativa que é descentralizar as decisões e a maneira de fazer negócio.
FolhaComo se encaixa a fábrica de Curitiba dentro deste processo descentralizado?
MachadoNós, aqui em Curitiba fazemos parte do setor de telecomunicações. Já os geradores de energia são feitos na fábrica da Lapa, em São Paulo. Transformadores é em Jundiaí (SP). Cada empresa é especializada em um setor e temos a total independência.
FolhaPor que a empresa mudou de nome há cerca de um ano?
MachadoDevido à lei de informática, a Siemens foi obrigada a passar a sua empresa do setor de telecomunicações para o controle de uma empresa nacional. O controlador era o Grupo Hering e a empresa passou a se chamar Equitel. A mudança na constituição brasileira permitiu que a Siemens trouxesse as telecomunicações de volta para o grupo. Ano que vem comemoramos nossos 25 anos.
FolhaFalando um pouco sobre sua carreira profissional. Quando o senhor começou a trabalhar como traineer da empresa, esperava chegar a diretoria da Siemens no Brasil e até na Alemanha?
MachadoEu jamais tinha esta idéia, mas deixa eu te contar um pouco da minha vivência pessoal. Nasci em Dom Pedrito - uma pequena cidade no Rio Grande do Sul, que na época tinha 30 mil habitantes. Eu havia saído poucas vezes de Dom Pedrito. O máximo que conhecia do mundo era Porto Alegre. De repente, decidi me candidatar a um curso na Alemanha e obtive a oportunidade de ir para a Alemanha para fazer o curso.
FolhaE como foi a experiência?
MachadoTudo foi novidade. Para você ter uma idéia, foi a primeira vez eu fui num aeroporto. Pela primeira vez eu vi um avião. Pela primeira vez saí do Brasil. E pela primeira vez, obviamente, eu cheguei na Alemanha e, com um detalhe: sem falar nenhuma palavra de alemão. Com muita boa vontade e coragem, caí na Alemanha.
FolhaE como foi a experiência?
MachadoVirei notícia. Eu diria que eles me viam como algo assim... exótico. Com o passar do tempo, senti-me totalmente integrado na sociedade alemã, que é meio fechada. Também na empresa não tive problema algum e foi uma experiência interessante, pois era uma fábrica mundial com competição aberta com as fábricas dos Estados Unidos e outros países da Ásia. Isso deu uma vivência enorme e grande experiência. Acho que boa parte dos executivos brasileiros deveriam ter essa experiência. Ir para um país de Primeiro Mundo exercer uma função de chefia. É algo assim impagável, extraordinário.
FolhaMas os primeiros dias na Alemanha devem ter sido terríveis?
MachadoNa época, quando fui escolhido para ir para a Alemanha, um dos executivos da Siemens, lá do Rio Grande do Sul, perguntou-me: ‘‘Senhor Machado, como é que o senhor vai para a Alemanha sem falar a língua deles?’’. E eu de pronto respondi: ‘‘Me dê umas três semanas e eu aprendo’’ (risos). Por isso que hoje eu tenho paciência com os mais jovens que chegam aqui na Siemens. Certa vez, eu entrevistando um jovem aqui na empresa, perguntei para ele o que ele se sentia apto a desempenhar. E ele me disse: ‘‘Desde office boy até gerente ou superintendente, eu aceito qualquer coisa’’ (mais risos). Eu me lembrei da minha época de jovem e o contratei.
FolhaQual o conselho para quem está começando a trabalhar ou ainda está estudando?
MachadoHoje em dia tem de passar a vida inteira aprendendo e por isso eu fiz, no ano passado, uma pós-graduação na Carolina do Norte, que me exigiu um tempo enorme. Vinte a trinta horas por semana, durante um ano. Uma pós-graduação traz enorme gama de conhecimento atualizado, algo espetacular. Mas nada comparado à vivência de chefiar uma unidade de grande empresa no exterior. Quem está começando tem que ter a vontade de querer vencer a não ter medo de fazer as coisas.
FolhaMas quem motivou o senhor a sair do Brasil?
MachadoMinha família era de poucos recursos, mas desde jovem, com 14 e 15 anos, eu tinha a minha meta, que era ir um período para o exterior para conhecer um pouco do mundo, para fazer uma coisa diferente. Mas não foi por acaso que essa oportunidade caiu nas minhas mãos. Eu me preparei, batalhei e consegui. Mas, no início, havia muito de sonho juvenil.
FolhaEste sonho juvenil valeu a pena? O senhor repetiria tudo de novo?
MachadoFaria tudo novamente. Houve momentos difícis. Por exemplo: deixar a namorada, que hoje é minha esposa. Quando a conheci, ela tinha 14 anos e eu tinha 18 anos. Aí nos separamos. Foi algo difícil, pois meu contrato com a Siemens determinava que eu ficaria três anos na Alemanha sem poder retornar ao Brasil. Na época, telefone não funcionava. Era só pelos Correios. Mas valeu a pena.
FolhaQuando o senhor voltou ao Brasil, continuou na empresa. O que mudou na empresa durante todo este tempo?
MachadoÉ mais fácil dizer o que não mudou, pois quase tudo mudou na Siemens. A empresa mudou os produtos. Só para você ter uma idéia das mudanças que tivemos na nossa área, vou te dar um exemplo. Quando eu trabalhava na fábrica em Gravataí (RS), nós importamos a primeira máquina calculadora eletrônica, que veio do Japão. Tínhamos apenas umas calculadoras eletromecânicas para fazer estatístitas, que faziam uma barulheira enorme. Batíamos 12 vezes 12 e sem fazer barulho ela apresentava o resultado 144. Logo, chegamos a conclusão que uma calculadora era muito pouco. Fomos conversar com nosso diretor e ele, rapidamente, nos disse, algo que nunca vou esquecer: ‘‘O que vocês estão pensando? Que no futuro cada departamento vai ter uma calculadora eletrônica?’’. Hoje, as calculadores podem ser encontradas por US$ 2,5 dólares. Isso só para te mostrar que os produtos da Siemens mudaram totalmente. O enfoque como se faz negócio também mudou completamente e mudou a formação das pessoas. O mundo como um todo. Antes fabricávamos e o setor de vendas, vendia. Hoje, com a abertura do mercado, não interessa em que país esteja a fábrica. Onde se produz é irrelevante.Há quase um ano, o governo federal fez o leilão das companhias que integravam o Sistema Telebrás. E desde então, uma revolução acontece no setor da telefonia brasileira. Quem acompanha com ansiedade estas mudanças são as fornecedoras, que esperam retomar o mais rápido possível o volume de vendas para as novas companhias telefônicas. A Siemens está no rol de empresas que aguardam a iniciativa das teles para voltar a fornecer com intensidade produtos para a telecomunicação. O controlador da Siemens em Curitiba, João Eber Guterres Machado, diz que, por enquanto, o setor está com pouca movimentação de negócios, mas começa a se aquecer a partir de agora.
Machado é hoje o responsável por toda a administração da Siemens em Curitiba, em cuja unidade são produzidos componentes eletrônicos para telefones e sistemas de redes de todo o País. A empresa exporta ainda seus produtos para diversos países da América Latina e da Europa. Há pouco mais de 25 anos no Grupo Siemens, onde começou a carreira como trainee, Machado acumula em seu currículo o fato de ter sido o primeiro brasileiro e o segundo estrangeiro a ocupar um cargo de diretor de uma das fábricas da Siemens na Alemanha, a da cidade de Witten, localizada na região do Ruhr. Natural da pequena cidade gaúcha de Dom Pedrito, Machado recebeu a Folha para a seguinte entrevista:




Privatização destrava mercado mundial
Diretor da Siemens no Paraná aposta nos novos horizontes das telecomunicações e diz que empresa está preparada para os desafios

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