Prisões assustam pequena comunidade judaica no Irã
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quinta-feira, 13 de janeiro de 2000
Por Afshin Valinejad 
Shiraz (AE-AP) - Numa sinagoga no coração do velho bairro judeu, fiéis terminam seu serviço de Shabat com uma solene oração pelos 13 companheiros detidos pelas autoridades iranianas sob acusação de espionagem.
"Nós rezamos para que aqueles que amamos estejam em segurança entre nós o mais breve possível", murmura o rabino. Então, centenas de pessoas dirigem-se para o pátio da sinagoga Rabeezadeh para trocar saudações e novidades e fofocar a respeito da sua pequena comunidade.
"Eles nunca saíram da minha cabeça", disse Arman Goel, um adolescente que conhece bem alguns dos prisioneiros. "Até mesmo as minhas notas na escola caíram depois que eles se foram".
O caso de espionagem foi desanimador para os 6.000 judeus de Shiraz, a antiga capital do império persa cuja riqueza e tolerância foram um ímã para pessoas de todos os credos.
Entre as 13 pessoas presas há mercadores, professores de religião, dois funcionários públicos e um garoto de 17 anos, disse Eshaq Niknava, presidente da sociedade judaica de Shiraz. Onze pessoas são de Shiraz e duas moram em Isfahan, que fica nas proximidades.
Os primeiros suspeitos foram detidos há um ano e meio. Os demais, em março do ano passado. Todos foram acusados de espionar para Israel e para os Estados Unidos, dizem autoridades iranianas, mas acusações formais nunca foram feitas.
Em outro caso ocorrido em janeiro de 1997, dois judeus foram mantidos na prisão Evin, em Teerã, sob acusações similares de espionagem.
O problema dos prisioneiros judeus atraiu a atenção dos EUA, de Israel e de diversos países europeus que exigiram que o Irã libertasse os suspeitos. Porém, a atenção, especialmente de Israel, criou, novas pressões. Parentes dos prisioneiros temem que quanto mais eles forem defendidos pelo Ocidente e por Israel
mais determinadas tornem-se as autoridades iranianas. "Nós devemos deixar que o problema se resolva sozinho, em silêncio. Este é o único jeito", disse a esposa de um dos homens que estão na cadeia e não quis se identificar.
Os parentes disseram que havia indícios de que pelo menos alguns dos judeus seriam libertados em breve. Eles temem que gravações ou qualquer coisa que possam falar sobre os apuros sofridos pelos companheiros possa colocar em risco a libertação.
Membros das famílias podem visitar os detentos por cinco minutos toda terça-feira. Eles costumavam levar comida kosher em cada visita, mas a administração da prisão proibiu a ajuda familiar meses atrás, dizendo que a comida estragava porque os prisioneiros não têm geladeira. Os internos alimentam-se agora com comida da prisão.
Uma mulher relembrou como seu marido foi detido, cerca de um ano atrás. "Alguns homens bateram na porta à meia-noite e levaram meu marido", disse ela. "Eu demorei três meses para conseguir vê-lo. Agora eu posso vê-lo por cinco minutos por semana, através de um grosso vidro, mas tudo bem."
Ela disse que alguns vizinhos muçulmanos, que são amigos muito próximos, ensinaram a ela um verso do Corão que ela recita toda noite. "Um de nossos vizinhos muçulmanos foi em peregrinação a um santuário fora de Shiraz apenas para rezar por meu marido", contou. "Antes de tudo isso acontecer, nós vivíamos em absoluta paz e harmonia."
A comunidade judaica iraniana, apesar de ter diminuído consideravelmente, continua a ser a maior do Oriente Médio fora de Israel. Eles podem praticar sua religião mas não podem ensinar hebraico, a língua litúrgica.
Várias vezes por semana meninos e meninas reúnem-se na casa da juventude judaica de Shiraz, na sinagoga Khorasaniha, para as aulas de religião ministradas por Ebrahim Bassalla, um funcionário público e professor voluntário.
Durante uma dessas aulas, no Shabat, Bassalla contou a história bíblica de Jacó e José para um grupo de 50 meninos e meninas com idades ente sete e 17 anos. "Vocês devem respeitar seus pais e nunca questionar quando eles pedem para que façam algo", ele aconselha, num tom paternal. "E vocês não devem nunca desperdiçar água, pão ou eletricidade", diz a eles antes de passar uma pequena caixa de bolachas que foi comprada com seu próprio dinheiro. Então, manda as crianças para casa. Às vezes ele também exibe filmes para elas.
A sinagoga, uma das 16 espalhadas ao redor de Shiraz, tem sua própria biblioteca com livros, vídeos e fitas cassete. Três açougues vendem apenas carne kosher e Niknava, o líder da comunidade, supervisiona o abate no matadouro municipal, que fornece caminhões refrigerados para transportar a carne.
Niknava está negociando com as autoridades a criação de outro cemitério judaico, porque o único existente em Shiraz está quase cheio.
No bairro judaico, localizado dentro da principal região comercial, ao lado da tumultuada avenida Karim Khan Zand, quase a metade das lojas permanece fechada aos sábados, o shabat judaico.
Nos tempos áureos, a comunidade judaica iraniana chegou a ter cerca de 100.000 pessoas. Contava com 80.000 antes da revolução islâmica de 1979. Agora, são cerca de 25.000. A maioria foi para os EUA, Europa e, em menor número, Israel, diz o doutor Manouchehr Eliasi, o único representante judeu entre os 270 assentos do Majlis, o parlamento.


