Prisão de Lopes fortalece investigações da CPI, dizem cientistas
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segunda-feira, 26 de abril de 1999
Por Regina Terraz e Ricardo Osman 
São Paulo, 27 (AE) - A prisão do ex-presidente do Banco Central Francisco Lopes pelos senadores da CPI dos Bancos deve provocar um fortalecimento das investigações da comissão. Esta é a opinião da maioria dos cientistas políticos ouvidos hoje pela reportagem. Na avaliação dos professores, o fato de Chico Lopes não ter se submetido às regras da CPI e se negar a assinar o termo de compromisso causou constrangimento aos senadores que, em reação, deverão apertar o cerco em torno dos envolvidos na suspeita de irregularidades no sistema financeiro e no Banco Central.
"A CPI tem outros meios de investigação além dos depoimentos e, na minha opinião, os parlamentares vão lançar mão destas prerrogativas para produzir fatos novos", acredita o cientista político Fernando Abrúcio, professor da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo. "O caso colocou em jogo a legitimidade da CPI e a tendência é aumentar a coesão entre os parlamentares para fortalecer os trabalhos", completa Abrúcio.
Para o professor, o pedido de quebra de sigilo fiscal, bancário e telefônico do ex-presidente do BC é um reflexo do acontecimento de ontem (26). Ele acredita também que o próprio governo terá de tomar algum tipo de medida para resgatar a credibilidade do Senado. "O Senado sentiu-se ferido, a honra da Casa foi afetada." O cientista político Carlos Novaes, professor da Unicamp, acredita que o episódio foi prejudicial à CPI, mas que os integrantes da comissão têm condições de prosseguir com as investigações e poderão reverter o quadro negativo, caso se aprofundem nas investigações e no estudo dos documentos. "A CPI é um instrumento muito forte se os senadores souberem trabalhar bem, abandonando um pouco a improvisação e o espetáculo e concentrando-se mais nas evidências, em elementos substanciais ", argumenta Novaes.
Na avaliação dele, a comissão se desgastou duplamente: ao achar que poderia intimidar Chico Lopes por meio da voz de prisão e, também, porque a atitude foi considerada ilegal pela maioria dos juristas. "Se a CPI tivesse acolhido a negativa de Chico Lopes com mais serenidade, o desgaste seria apenas do ex-presidente do BC." Ele acredita que a atitude sugere à opinião pública que a CPI está desarmada.
A professora Maria Hermínia Tavares de Almeida, chefe do Departamento de Ciências Políticas da USP, também pensa desta forma. Para ela, a prisão do ex-presidente do BC pela CPI foi um abuso. "O Congresso, na busca do fato espetacular, às vezes, escorrega", afirma. Maria Hermínia acredita que a comissão é um instrumento importante de investigação, mas deveria ter uma conduta mais séria. "Hoje, a CPI produz muito barulho e poucos resultados." Na opinião dela, quanto mais discreto e sigiloso o trabalho da comissão, maior o efeito da investigação.
O professor da Unicamp Leôncio Martins Rodrigues é o único que discorda desta avaliação. Para ele, a estratégia de Chico Lopes de fugir do depoimento poderá ser seguida por outras testemunhas. "A tática poderá abrir precedentes perigosos capaz de esvaziar o instituto da CPI", acredita Leôncio. "Teremos uma semana de indignação, mas a atitude de Lopes matou a CPI do Sistema Financeiro", aposta o cientista político. "O espetáculo fica sem a estrela principal e seguirá somente com os coadjuvantes." Para ele, nem mesmo a convocação de Salvatore Cacciola, dono do Banco Marka, reverteria esse processo.
A maioria dos cientistas políticos também acredita que a estratégia adotada pelo ex-presidente do BC - de desviar o caso da esfera política e limitá-la ao Judiciário - produziu efeitos negativos para a imagem de Chico Lopes na opinião pública e poderá atingir o governo. "Para o governo, os danos serão sérios, uma vez que um ex-integrante do governo estaria admitindo, com esta atitude, certa culpa, o que traz danos à imagem do governo, pois cria uma nuvem de suspeição da gestão no Banco Central; com isso, até o Pedro Malan pode ser convocado para depor", argumenta Gaudêncio Torquato, presidente da Associação Brasileira dos Consultores Políticos (Abcop).
"A opinião pública pode imaginar que Chico Lopes estaria fugindo da raia." De acordo com Torquato, Chico Lopes procurou "salvar a própria pele" ao limitar o caso à Justiça "um palco mais tranquilo, sem se importar com os danos à imagem do governo", diz. "Foi tudo muito bem articulado, perfeito tecnicamente, mas um desastre politicamente para Lopes e para o governo." Lêoncio pensa diferente. Para ele, o governo e o ex-presidente do BC beneficiaram-se com o não depoimento de Chico Lopes. "A CPI não teve a oportunidade de ter um depoimento que duraria horas, com dinâmica própria, e com perguntas que, se ele não respondesse, poderiam ser utilizadas contra o governo", analisa o cientista político. "Dada a situação difícil, as denúncias e a cobrança de explicações, a decisão foi positiva para Lopes e para o governo", acrescenta. "É preciso considerar que a situação para Lopes já era difícil, ele iria para julgamento na Justiça do mesmo jeito", diz Leôncio.
Fernando Abrúcio acredita que a prisão de Chico Lopes pela comissão poderá refletir também nos trabalhos da Justiça. "O interesse do Judiciário no momento é mostrar serviço; eu acredito que eles não vão querer acobertar Chico Lopes." Na avaliação dele, Chico Lopes poderá ter um tratamento mais duro na Justiça do que o dado em casos semelhantes no passado. O cientista político acha que a tática usada pelo economista derruba qualquer chance de vida "pós-julgamento" na sociedade. "A estratégia cínica tirou qualquer credencial de caráter de Chico Lopes."


