Prisão de delegado acirra briga entre grupos na PF
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quarta-feira, 31 de março de 1999
Por Fausto Macedo 
São Paulo, 01 (AE) - A prisão do chefe da Delegacia de Combate ao Crime Organizado e Inquéritos Especiais (Delecoie), Gilberto Aparecido Américo, abalou a Polícia Federal em São Paulo e reabriu uma guerra envolvendo grupos inimigos que atuam nas divisões internas da corporação. Detalhes dessa briga e a cópia da sentença judicial que decretou a detenção de Américo chegaram ao ministro da Justiça, Renan Calheiros, que está às voltas com a nomeação do novo diretor-geral da PF.
Muitos delegados apóiam Américo e acusam outros policiais de promoverem intrigas e "falsas denúncias" que o colocaram na condição de suposto "manipulador de provas" em inquérito que investiga golpes praticados no mercado pelo investidor financeiro Renato Arraes. Américo ficou preso durante 72 horas - entre sexta-feira e a noite de segunda -, por deteminação do juiz Ali Mazloum, da 7.ª Vara Criminal da Justiça Federal. O impacto da detenção do delegado é grande porque ele foi escolhido para dirigir um setor especial criado pelo presidente Fernando Henrique Cardoso em 1997, em meio às descobertas da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) dos Precatórios.
Investigando o golpe dos precatórios, Américo concluiu que o ex-prefeito Paulo Maluf e o prefeito Celso Pitta teriam desviado cerca de R$ 900 milhões arrecadados com a venda de Letras Financeiras do Tesouro Municipal. A venda havia sido autorizada pelo Banco Central e pelo Senado mas o delegado pediu a prisão temporária de Maluf e Pitta, acusando-os de forjarem dados sobre a dívida da Prefeitura.
A prisão de Américo não tem relação com esse caso - refere-se ao inquérito sobre o investidor Renato Arraes. O juiz Ali Mazloum sustentou que o delegado sonegou documentos e seria o responsável pela adulteração da memória do notebook de Arraes, apreendido em outubro. Mazloum baseia a acusação em laudos formulados por peritos da USP e pelo Ministério Público. Por meio da fraude, o nome do próprio juiz foi incluído na agenda eletrônica de listagem de clientes do investidor. O juiz aponta a existência de um núcleo de corrupção. "Pelo menos um caso concreto de extorsão foi noticiado por Antônio Oliveira Claramunt", anotou Mazloum.
O caso fez ressuscitar velho esquema dos bastidores da PF que inclui a remessa para autoridades de cartas anônimas contendo revelações sobre policiais e suas ligações. Uma dessas cartas foi enviada à Justiça denunciando que a PF não estaria disposta a acatar determinação de Mazloum para apurar a adulteração do computador. Outra carta dizia sobre os dotes do filho de um delegado na área de informática.
Enquanto Américo permaneceu recolhido na Delegacia de Ordem Política e Social, delegados exaltados travaram discussões pelos corredores e gabinetes da sede da superintendência regional da PF. Houve bate boca e ameaças. "Vamos acabar com essa hipocrisia aqui dentro, estão querendo arrumar para o doutor Gilberto", reagiu um delegado em reunião no sindicato da categoria.
As divergências entre os federais sempre foram notórias mas agravaram-se agora. Um deles disse que a prisão foi decretada depois que dois delegados prestaram depoimento. "Está havendo traição dentro da PF ", afirmou um policial. Segundo ele, desafetos de Américo estariam agindo "na sombra" para prejudicar o chefe da Delecoie.
Américo foi libertado por ordem do desembargador Souza Pires
do Tribunal Regional Federal, que acolheu habeas corpus dos Sindicatos dos Delegados e dos Agentes da PF. Segundo o desembargador, os autos revelam que o delegado "não pode ser responsabilizado pelo fato de o nome do juiz ser mencionado, de forma desgarrada, nos registros de informática pertencentes ao indiciado (Arraes)".


