São Paulo, 30 (AE) - Os estudantes da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) estão perplexos com a prisão temporária de Frederico Carlos Jana, de 24 anos, o Ceará. Numa fita de vídeo, gravada durante festa de universitários numa choperia, em abril, ele diz, em tom de brincadeira, que matou o calouro Edison Tsung Chi Hsueh. O rapaz negou o crime à polícia.
Hsueh morreu durante trote violento em 22 de fevereiro deste ano na Associação Atlética Oswaldo Cruz, da Faculdade de Medicina. Seu corpo foi encontrado por um segurança na piscina, na manhã do dia 23. Além da fita, pesam contra Ceará acusações de alguns calouros, que descreveram à polícia como ele aplicou o trote. Hoje, porém, o sentimento comum na faculdade é de que Ceará falou tudo brincando.
Segundo Matheus Oliveira, aluno do terceiro ano, esse tipo de brincadeira tornou-se comum em todas as festas a que vão. Basta saber que existem alunos da Medicina da USP em alguma reunião onde existam universitários para virarem motivo de chacota. "Já aconteceu comigo, numa festa da Poli", assegurou. "Foi só uma piada triste, de humor negro, que foi mal-interpretada."
Oliveira disse que conhece Ceará há três anos, que ele é uma pessoa querida em toda a faculdade e também é muito esforçado. "Ele vem de uma família nordestina humilde, fez cursinho com bolsa de estudos e vendia livros", contou. Tanto que vive na Casa do Estudante, na Rua Teodoro Sampaio, em Pinheiros, alojamento para os alunos que têm dificuldades financeiras. Para ele, as circunstâncias em que a declaração foi dada "não provam nada".
Fábio Rodriguez, aluno do primeiro ano, fez coro. "Brincadeiras como essa tornaram-se normais; é uma forma que encontramos de exorcizar o assunto", disse. "É óbvio que se ele tivesse matado não diria; essa declaração deveria ser entendida mais como um álibi do que uma confissão."
Para Juan Carlos Afonso Fernandez, também do primeiro ano, Ceará está sendo vítima porque é pobre. "Tenho certeza absoluta de que ele não matou ninguém, mas é preciso arranjar um bode expiatório", afirmou. No seu entender, não houve culpados. Hsueh caiu na piscina e ponto final.
Gabriel Ferreira Rozin acha que basta um pouco de discernimento para ver que a declaração não pode ser levada a sério. "Morreu um colega e isso é o pior de tudo, só que é ridículo tomar uma brincadeira como confissão", disse. Para a caloura Lilian Kayano, o trauma inicial já foi superado. "Mas ninguém esquece."

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