Seattle, EUA, 02 (AE) - O número de manifestantes detidos já passava de 500 na manhã de hoje, o que explicava a relativa tranquilidade dentro de uma enorme área de 50 quarteirões no centro da cidade de Seattle, onde se realiza a 3ª Conferência Ministerial da Organização Mundial do Comércio (OMC). Liberados do aborrecimento de atravessar verdadeiros corredores poloneses de manifestantes irados, os delegados à conferência circulam agora livremente entre seus hotéis e os edifícios onde se realizam os vários encontros do evento. Mas a suposta paz não está ajudando as negociações.
Pelo contrário. O vigor da manifestações, somado à insistência do presidente Bill Clinton em criar um grupo para discutir questões trabalhistas no âmbito da OMC, tiveram o condão de complicar enormemente as negociações. Um acordo, qualquer acordo, ainda parece difícil. No comitê que discute a espinhosa questão da agricultura e dos subsídios agrícolas, a mais importante da conferência, o debate franco e risonho não resultou em nada e o outro método - a conversa ao pé de ouvido, de gabinete, entre poucos membros seletos - também não conseguiu formular uma proposta de consenso. Enquanto isso, todos os demais temas à espera de solução continuam estacionados, como a questão do comércio eletrônico, dos direitos intelectuais ou da biotecnologia. "Não chegar a um acordo esta semana será um golpe de morte na OMC", avaliou o ministro brasileiro das Relações Exteriores, Luiz Felipe Lampreia, que vê essa possibilidade como uma capitulação diante dos manifestantes.
Em entrevista coletiva convocada para a manhã de hoje, as organizações não governamentais acusaram as autoridades de terem descumprido os três acordos básicos com as lideranças dos protestos: não prender as equipes de advogados e de comunicações
que circulavam uniformizadas; não usar violência contra ativistas não violentos; permitir aos detidos acesso a advogados. As ONGs queixam-se de que a polícia "fez prisões cirúrgicas", escolhendo justamente os advogados e jornalistas das entidades, identificados por coletes amarelos. Parte dos detidos passou a noite em ônibus urbanos e mal tiveram acesso a advogados.
Quando se tentou identificá-los para fazer os indiciamentos, uma nova tática de desobediência civil foi adotada pelos manifestantes: eles não se identificavam e, quando convocados a se mover, sentavam ou deitavam no chão, obrigando os policiais a carregá-los. Por isso, as fianças foram elevadas de US$ 100 para até US$ 2 mil. Curiosamente, a polícia praticamente só prendeu pacifistas, os mesmos que passaram boa parte da manhã limpando voluntariamente as pixações feitas pelos grupos violentos.

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