Príncipe saudita emerge como advogado das reformas
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quarta-feira, 04 de agosto de 1999
Por Faiza Saleh Ambah 
Dubai (AE-AP) - Clientes e vendedores ficaram chocados, assim como o séquito que seguia o sucessor do rei Fahd, príncipe herdeiro Abdullah, quando este resolveu dar uma volta por uma alameda, conversando com cidadãos e parando para comer batatas fritas, pizza e sorvete.
Num país onde líderes são tradicionalmente reservados, Abdullah está emergindo como um homem do povo. Ele tem conversado honestamente com os sauditas sobre os problemas econômicos do país, feito declarações contra a corrupção, ouvido as reclamações dos cidadãos contra os burocratas e incentivado as mulheres a ter um papel maior na sociedade.
Esta receita está criando uma forte base popular para um homem que tem carência credibilidade dentro da estrutura de governo saudita. Ele vai precisar deste apoio porque, mesmo quando se tornar um monarca, seus meio irmãos - incluindo ministros da defesa e do interior, além do governador de Riad, a capital - esperam manter o controle de seus poderosos domínios.
Abdullah tem o toque comum e as pessoas sentem-se próximas a ele. Elas acreditam que ele está preocupado com seus problemas e tenta, pessoalmente, fazer algo por elas", disse o analista político Hassan al-Husseini. O príncipe herdeiro, que vem progressivamente conquistando o poder do país desde que seu irmão, o rei Fahd, sofreu um derrame em 1995, tem enfrentado os sérios problemas econômicos do país. O baixo preço do petróleo, principal fonte de receita do país, resultou em déficit de 45 bilhões de riyals (12 bilhões de dólares) por dois anos seguidos.
Mas Abdullah, que aos 75 anos é apenas alguns meses mais jovem do que o rei doente, vem reanimando o país com seus desafios e está resolvido unir novamente a nação, erguendo-a pelo esforço próprio, dizem os analistas. Ele quer fazer da Arábia Saudita um país moderno, capaz de competir com os demais no próximo século. E ele quer que todos os segmentos da sociedade, incluindo as mulheres, façam parte deste processo", diz Waheed Hashem, professor de ciência política da Universidade Rei Abdul-Aziz em Jiddah, um porto do Mar Vermelho.
Sua visão de que as mulheres devem exercer um papel maior na sociedade tem chamada muita atenção recentemente. " Nós iremos abrir todas as portas para a mulher saudita a fim de permitir que ela contribua plenamente com a nação...o que é uma grande necessidade delas", proclamou durante um discurso.
Esta não é uma idéia revolucionária para os padrões ocidentais e ainda não vieram seguidas de nenhuma ação concreta, mas são pioneiras num reino conservador como a Arábia Saudita. Mulheres sauditas não dirigem, precisam de autorizações escritas de um parente do sexo masculino para viajar, não podem se misturar aos homens e são obrigadas a cobrir-se dos pés a cabeça quando estão em público.
O discurso de Abdullah levou a sociedade a um intenso e inédito debate sobre o papel da mulher na sociedade e tem aumentado ainda mais sua popularidade.
Um sinal da fragmentação do poder entre a família real foi o fato de os jornais sauditas terem ignorado o discurso por vários dias, até que recebessem o sinal verde do Ministério da Informação para discutir o assunto, setor que não está sob influência de Abdullah.
Algumas semanas mais tarde, dezenas de jovens clérigos com suas longas barbas e trajes, típicos dos muçulmanos fundamentalistas, distribuíram livretos nas mesquitas de Riad denunciando a intenção de aumento dos direitos femininos. O chefe eclesiástico saudita publicou um edital, afirmando que o lugar da mulher é em casa.
O príncipe Nayef, meio irmão de Abdullah e ministro do interior, colocou um fim ao debate quando publicamente repreendeu a imprensa por discutir o assunto. "Nós não temos o desejo nem a intenção de permitir que as mulheres dirijam e seu papel não deve tornar-se um problema", disse.
Porém, as idéias de Abdullah continuam a interessar o povo saudita, que está encantado com sua reputação de honestidade e sua determinação de acabar com a corrupção. Grupos exilados de oposição isentam Abdullah em seus faxes semanais, que acusam os membros da família real de diversos delitos, de decadência a corrupção. Ele também não aparece na lista de oficiais corruptos publicada no site da Internet do grupo dissidente Sauditas Contra Corrupção.
O príncipe herdeiro encontrou-se recentemente com oficiais do Ministério das Telecomunicações e disse a eles que havia recebido diversas reclamações dos cidadãos sobre os serviços oferecidos.
Durante a reunião, a primeira deste tipo, Abdullah disse aos oficiais que eles, como ele próprio, devem estar a serviço do povo. Ele também fez comentários sobre os rumores de corrupção no ministério.
Abdullah tem sido elogiado por seu discurso franco e honesto. "Os dias do boom do petróleo estão acabados", afirmou no ano passado, pedindo aos cidadãos que cortassem gastos desnecessários de suas vidas amplamente subsidiadas pelo estado. Abdullah está tentando fazer com que os 7 mil príncipes e princesas do país pagem por suas contas de eletricidade e de telefone e também pelos vôos pela companhia aérea nacional, que até o momento são gratuitas.
Pessoas que trabalham com ele, afirmam que o príncipe trabalha pessoalmente em grandes projetos de construção, a fim de certificar-se que não há comissões sendo cobradas. Aos poucos, ele está tentando fazer com que os sauditas acreditem mais em si mesmos e menos no governo. Abdullah esteve por trás de um recente corte de subsídios, que resultou em aumento de 50% do preço da gasolina e vem estimulando a privatização dos setores de eletricidade e telecomunicações. Há indícios de que a criação de uma espécie de imposto sobre circulação de mercadorias está sendo estudada.
O príncipe herdeiro é, aparentemente, rigoroso também com a disciplina financeira de sua própria família. Fontes afirmam que ele analisa pessoalmente as contas telefônicas de sua casa para ter certeza de que seus filhos, que acredita-se sejam 16, não façam ligações em excesso.


