Príncipe Charles faz visita histórica à Argentina
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domingo, 07 de março de 1999
Por Ariel Palácios, especial para a AE (assinatura obrigatória) 
Buenos Aires, 08 (AE) - Pela primeira vez em seis décadas, um herdeiro da coroa britânica colocará seus pés na Argentina. Em uma visita que está sendo encarada como um grande passo no processo de reaproximação entre os dois países, o príncipe Charles de Windsor chegará nesta terça-feira (09) à Buenos Aires.
Charles não falará sobre política, mas poderá ouvir sobre o tema. Mas isso não importa para os dois governos: a visita do herdeiro britânico poderá ser puramente cerimonial, mas possui um fortíssimo caráter simbólico.
No governo argentino, comenta-se que será inevitável conversar sobre a disputada soberania das Ilhas Malvinas. No entanto, o Foreign Office, o ministério das Relações Exteriores britânico, declarou que esse tema não faz parte da agenda do príncipe. Mas, a agenda pode ser driblada.
Como exemplo, está a visita que o presidente Carlos Menem fez à Londres em novembro passado, quando durante um jantar com a rainha Elizabeth II, encontrou a forma de tocar no delicado tema.
Analistas consideram que esta também será uma das visitas mais delicadas com a qual se enfrentará o príncipe Charles. Além da Argentina, o filho da rainha Elizabeth também passará pelo Uruguai na quinta-feira e dali, no domingo, partirá para as Ilhas Malvinas. A visita ao Uruguai servirá para averiguar que posibilidades existem de que sejam retomados os vôos às Malvinas desde esse país.
As ilhas encontram-se em problemas: por causa da detenção do general Augusto Pinochet em Londres, o governo chileno decidiu proibir os vôos desde o Chile até as Malvinas. Esse era o único vôo que os ilhéus possuíam com o continente e é uma das poucas fontes de abastecimentos.
O ponto principal da visita do príncipe Charles em Buenos Aires será a homenagem que prestará aos soldados argentinos mortos na Guerra das Malvinas. Charles colocará uma coroa de flores no monumento aos mortos na Guerra na Plaza San Martín, em pleno centro da capital. Esse gesto será uma retribuição à homenagem que o presidente Carlos Menem fez aos mortos britânicos à essa guerra na Catedral de Saint Paul, em Londres. O príncipe estará acompanhado por Rick Jolly, presidente da Associação de Veteranos Britânicos.
As associações de veteranos argentinos não pretendem realizar nenhuma manifestação contra a presença do príncipe britânico, cujo irmão - o príncipe Andrew - participou da guerra comandando um helicóptero. No entanto, os veteranos argentinos pedem que a população coloque bandeiras argentinas nas janelas, em sinal de reivindicaçào do território das ilhas.
Charles também virá com uma comitiva de 50 empresários, selecionados entre os principais do país. O príncipe dedicará parte de sua agenda a um jogo de pólo, a visitas a investimentos britânicos, mas também dará um toque de caridade, e poderá visitar uma favela no bairro de Villa Lugano, na capital argentina.
O encontro pessoal com o presidente Carlos Menem é o outro ponto alto da visita, já que se espera que Menem solicite ao príncipe que seja permitido que ele e sua filha Zulemita visitem as Malvinas antes do fim do ano. Desde o fim da guerra, os "kelpers", como são conhecidos os habitantes das ilhas, proíbem a entrada de argentinos com o passaporte nacional. No entanto, permitem que possam entrar argentinos com outros passaportes. Mas, Menem, que possui passaportes honorários da Síria e da Turquia, afirma que gostaria de entrar com o passaporte argentino. Essa hipotética visita seria um grande trunfo político, que tornaria Menem o primeiro presidente argentino a pisar o solo das ilhas, desde que o ditador general Leopoldo Galtieri esteve ali durante a ocupação argentina em 1982.
Menem também pretende que uma bandeira argentina esteja ondeando ao sabor do vento das Malvinas até o fim do ano. A primeira proposta que formulou era a instalação da soberania compartilhada, onde as ilhas seriam nominalmente argentinas, mas britânicas de fato, o que permitiria que a bandeira bicolor argentina pudesse ser hasteada ali.
Os britânicos negaram-se, e Menem propôs uma solução mais potável ao paladar anglo-saxão: colocar uma bandeira argentina no cemitério militar de Port Darwin, onde estão enterrados 300 soldados argentinos.
Esta proposta ainda está sendo analisada, e se fosse aceita, cumpriria a promessa de Menem, ainda que de forma simbólica.


