Buenos Aires, 10 (AE) - "Convívio amigável". Estas palavras caíram como um balde de água fria nos integrantes do governo argentino, que ouviram como o príncipe Charles de Windsor reforçava a postura britânica de que as ilhas Malvinas não retornarão às mãos argentinas.
Charles estava explicando que convidava a Argentina a "viver amigavelmente" com os kelpers, como são conhecidos os habitantes das Malvinas. O convite à convivência não era esperado. Do lado argentino, imaginava-se que haveria um sinal do lado britânico de que poderia surgir algum avanço que fosse favorável à Argentina.
Um murmúrio de decepção percorreu o elegante Salão Versailles do Hotel Alvear, onde o presidente Carlos Menem estava oferecendo um banquete a Charles, que está em Buenos Aires desde terça-feira para uma visita de três dias que concluirá amanhã. Da Argentina, Charles partirá para o Uruguai e no domingo irá para as ilhas Malvinas.
Com extrema cordialidade, Charles explicou aos diplomatas argentinos uma dura realidade. O herdeiro dos Windsor disse que tem a esperança de que "o povo da moderna e democrática Argentina, com sua paixão por conservar suas tradições nacionais
seja capaz no futuro de viver amigavelmente ao lado de outro povo democrático e moderno, embora menor, localizado a centenas de milhas de sua costa, que também é apaixonado em conservar suas tradições". O príncipe disse que espera que este processo "ocorra com espítiro de mútuo entendimento". Fazendo uma implícita referência à invasão argentina em março de 1982 às ilhas, Charles afirmou que também espera "que nenhum lado volte a sentir o medo à hostilidade".
A referência aos kelpers foi interpretada pelos argentinos como uma tendência do governo britânico em dar impulso à auto-determinação dos pouco mais de 1.600 habitantes do gélido arquipélago, que foi tomado da Argentina pelos britânicos em 1832.
Para o governo argentino a idéia de auto-determinação é desfavorável, já que implicaria em que a Grã-Bretanha "lavaria as mãos" na disputa pelas Malvinas. Neste caso, em vez de duas partes nas negociações, passariam a existir três, o que complicaria o panorama. Além disso, a auto-determinação dos kelpers dificultaria as reivindicações argentinas na ONU, já que não existe população de origem argentina nas ilhas que possa argumentar que está sendo colonizada.
No lado de fora do Hotel Alvear militantes do grupo de esquerda "Quebracho" protestaram contra a presença de Charles, a quem chamaram de "assassino". A manifestação terminou em um confronto com a polícia, que deteve 57 jovens. O choque provocou dez feridos civis e seis policiais.
A imprensa também disparou suas farpas contra o herdeiro do trono britânico, e recordou constantemente os 652 argentinos mortos nas ilhas durante a Guerra de 1982: o jornal popular "Crónica", o segundo de maior tiragem no país, nas manchetes definiu Charles como "o pirata inglês". "Crónica" destacou o incidente ocorrido com mais de 70 travestis que no dia anterior haviam pedido asilo político na Embaixada britânica.
Além disso, o canal de TV a cabo da mesma empresa colocou uma propaganda especial com os dizeres "As Malvinas são argentinas", com o fundo musical do hino composto especialmente para a invasão ordenada pelo general Leopoldo Galtieri.
Além de encontros com políticos e empresários, o príncipe Charles também teve momentos para espairecer: no fim da tarde de hoje disputou um jogo de pólo, esporte tradicional tanto na Argentina como na Grã-Bretanha. O jogo foi na cidade de Hurlingham, berço e centro do pólo no país, que foi fundada por ingleses nas proximidades de Buenos Aires. Charles jogou de "back", uma posição defensiva. O prêmio será doado à caridade.

mockup