Londres, 20 (AE) - Estes são os principais pontos da entrevista do presidente Fernando Henrique Cardoso, em Londres, sobre o caso do Banco Marka: Defesa que fez de Chico Lopes - "Em primeiro lugar, eu não estou no Brasil e nem sei do que se trata. O que eu fiz foi uma defesa da privacidade e da necessidade de que haja elementos de juízo para que as pessoas tenham sua privacidade invadida. Foi o que eu disse. Em segundo lugar, eu disse que a demissão do presidente do BC foi uma decisão minha, juntamente com o ministro da Fazenda, Pedro Malan, em função de questões operacionais, que nada tinham a ver com quaisquer suspeitas. Foi isso que eu disse e isso eu repito porque é verdade. Quanto ao resto, eu não sei, não estou lá para saber do que se trata." Macrométrica - "Na verdade, eu não sei (se a ligação da Macrométrica) é uma ligação com o mercado financeiro. Eu não sei o que é Macrométrica, e quanto eu saiba - que ouvi dizer - é uma empresa que produzia dados. Depende da natureza das informações. Eu nunca li um boletim da Macrométrica. Acho que isso não é assunto que eu deva estar comentando. É um assunto para examinar lá, eu não tenho a menor informação." "Presidente não é polícia" - "Olha aqui: o presidente da República não é polícia. gente. Ou vocês entendem isso ou então fica difícil. Se vocês acharem que o presidente tem papel de polícia, pobre País. Vai criar um Estado policial. O Banco Central deve prestar todos os esclarecimentos ao próprio presidente do BC, ao governo , à CPI, à sociedade. Mas apropriadamente." Gosto pelo abismo - "Eu tenho um ponto de vista de que temos que, no Brasil, amadurecer. Acho que, enquanto nós vivermos assim, au bout de souflê - se permitem um francezinho, já que estou na Inglaterra - ou se quiserem, em português, dito outra frase: na beira do abismo. Enquanto tivermos esse gosto por viver na beira do abismo, isso prova de falta de maturidade. Funcionamento da CPI - "Temos de aprender que uma coisa é o funcionamento de uma comissão de inquérito. Não há porque contagiar o resto da sociedade com uma investigação. É natural que, nos parlamentos, as coisas sejam mais acaloradas que em outros ambientes. Não precisa ficar o tempo todo imaginando porque fulano vai ser chamado, porque cicrano, e então... e então nada. Vamos pensar um pouco mais naquilo que interessa e o que interessa é você criar condições para que haja estabilidade da moeda, para que os povos não paguem o preço dos desatinos de alguns." Mercado - "Eu não acompanhei este mercado hoje e nem estou acompanhando muito diariamente. Acho um bom sinal a gente não estar o tempo todo olhando para o mercado. Mercado é mercado e uma nação é muito mais que um mercado. E eu estou preocupado com a nação e não apenas com o mercado." Decisão Operacional - "Que não caiba a menor dúvida, isso eu sei, a decisão foi minha e eu sei porque tomei a decisão. A decisão não foi tomada em função de qualquer alegação de manipulação no Banco Central. Foi tomada em função de uma percepção minha, acompanhada pelo ministro da Fazenda, que, aliás, naquele momento, também colocou o cargo à disposição. Nós tínhamos sofrido não apenas a desvalorização da moeda, mas uma corrida aos bancos na sexta-feira, 29, e decisão foi no dia 30. A razão é óbvia, pura. Vejo algumas pessoas dizendo: precisa explicar melhor; explicar nada, quem dá a explicação sou eu porque quem tomou a decisão fui eu e por essas razões." Relatório do BC Ssobre Caso Marka - "Eu não tenho informações e vou esperar as conclusões das análises todas para então eu poder formar eu próprio um juízo sobre o que aconteceu. Eu não tenho informação." Obsessão - "Eu nunca tive nenhuma informação desabonadora sobre o dr.Chico Lopes, nunca tive, quando tiverem... Mas acho que só essa preocupação obcessiva, antes de haver alguma coisa concreta
me parece excessiva. Vamos ver do que se trata, gente. É muito ruim julgar ex-antes. Você não pode colocar uma pessoa no pelourinho sem que haja alguma coisa mais. Porque até agora são hipóteses, o que aconteceu? não sei, não posso avançar porque não sei." Preocupação com o rumo das investigações - "Estou preocupado com uma coisa: mostrar ao mundo que o Brasil é um país sério. Eu levei a vida para que o Brasil pudesse ser respeitado fora, tudo que eu faço como presidente é tentar fazer com que o Brasil tenha autoestima, seja respeitado. Não estou preocupado em demolir o que se constrói, estou preocupado em manter e ampliar um País como o Brasil." Desabafo - "Vocês são testemunhas, eu não faço outra coisa no exterior a não ser tentar mostrar ao mundo que o Brasil é um país sério, tentar dar dignidade ao Brasil - que nós temos - o próprio povo tem. Agora se a gente quiser olhar sempre de uma maneira enviesada, para mostrar que não somos assim, fica difícil. Eu luto, não façou outra coisa e não é que eu não diga as coisas como elas são no Brasil. porque se eu não disser como elas são eu não terei credibilidade." Lenha - "Uma CPI é uma coisa respeitável e para ser respeitada nós temos que ver como ela trabalha. Não podemos precipitar julgamentos. Não é meu objetivo e nem é meu objetivo encobrir nada, mas também não pode ser o presidente da República a botar lenha numa fogueira que você não sabe o que é e para quê. Você vai queimar alguém que é uma bruxa, que foi acusado de ser bruxa e não é, ou de repente é mesmo, ou não existem bruxas. Como presidente não me cabe endossar nervosismos, me cabe, o quanto possível, manter o Brasil funcionando dentro da normalidade." Instâncias - "Estou defendendo que se faça a investigação, mas com propriedade. Se houve com dinheiro, um mau uso, quem fez tem de pagar. Agora existem instância para isso, democracia é assim existem regras, instâncias. Primeiro você investiga e precisa primeiro saber se quem investiga está autorizado. Se tiver investiga, pega, prova, confronta. O governo pode tomar decisão de governo, depois se tem os tribunais, tomam decisões de tribunais. Tudo isso faz parte da democracia pela qual muitos de nós lutamos. Mas nós não lutamos simplesmente para se , ao acusar, condenar. Isso se fazia em outras épocas, aliás se faz em outras partes também."

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