Primeiro registro da imprensa norte-paranaense completa 100 anos
Edição de estreia do Paraná-Jornal, extinto semanário de Jacarezinho, é preservada pelo Centro de Documentação Histórica da UENP após doação
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sexta-feira, 28 de agosto de 2026
Edição de estreia do Paraná-Jornal, extinto semanário de Jacarezinho, é preservada pelo Centro de Documentação Histórica da UENP após doação

Na manhã de 29 de agosto de 1926, último domingo do mês, o Norte do Paraná viu, pela primeira vez, as notícias da região circularem em um periódico local. A edição de estreia do Paraná-Jornal, um semanário de quatro páginas com sede em Jacarezinho, sob direção de Allyrio Bonilha e F. de Assis Braga, trazia os acontecimentos sob a ótica de quem vivia a realidade do município, que despontava como o principal polo do Norte Pioneiro quando cidades como Londrina e Maringá sequer existiam no mapa.
A edição centenária, que registrou desde o esforço da Associação Comercial para garantir o envio diário de correspondências a Curitiba, evidenciando a histórica dificuldade de comunicação com a capital, até reclames comerciais da época, sobrevive graças ao trabalho de preservação do CEDHIS (Centro de Documentação Histórica) da UENP (Universidade Estadual do Norte do Paraná), sediado em Jacarezinho.

Para a historiadora Janete Leiko Tanno, coordenadora CEDHIS, a preservação da memória é de extrema importância. "O periódico é um documento fundamental para o historiador. Por meio dos jornais, nós conseguimos reconstruir a história política, social, econômica, cultural e o próprio cotidiano de uma época. Em uma única página você encontra desde as disputas políticas e as relações com o governo até a economia local, os anúncios de cinema e os registros da vida simples da comunidade", destaca Janete.
Segundo a pesquisadora, ter acesso a impressos das décadas de 1920 e 1930 no Norte Pioneiro é uma raridade. "É um achado. O Paraná-Jornal é o mais antigo registrado na cidade e nos dá a possibilidade de pensar a sociedade de forma ampla, compreendendo as tensões e os costumes de um período decisivo", pontua.
Ponte com a comunidade e o acervo privado
Ao contrário de regiões de ocupação mais recente, como o Norte Novo, o resgate documental no Norte Pioneiro enfrenta a barreira do tempo e da posse privada. Grande parte das fontes históricas permaneceu sob a guarda de famílias tradicionais e descendentes da elite cafeeira. "Em cidades de colonização mais antiga, o acesso à documentação que está em mãos de particulares é extremamente difícil. Você não consegue material simplesmente batendo na porta. É preciso construir pontes e laços de confiança", explica a historiadora.
Nesse processo, a atuação de parceiros locais e entusiastas da memória regional foi decisiva para que o acervo chegasse até a universidade. Ela destaca a parceria do jornalista e artista local Tiago Angelo, que também é servidor da UENP. "O resgate desses periódicos e dos nossos principais arquivos só foi possível graças à mediação e ao trabalho de busca do Tiago, que tem esse vínculo com a cultura e com a história da cidade e nos colocou em contato direto com esses guardiões da memória. Sem essa articulação, a universidade não teria acesso a esse patrimônio", reconhece a coordenadora.
Tanno cita doações importantes para o acervo, entre elas a da família Lessa, que inclui o periódico. “Eram documentos, livros, cartas e jornais que pertenciam ao meu sogro, Gustavo Lessa, que foi prefeito de Jacarezinho e deputado estadual. Era um homem muito culto. Ele lia muito e encadernava os jornais. Depois que ele morreu, esse material rodou por aí, mas voltou para a família", contou Gladys Alzira e Silva Lessa, que hoje mora em Londrina.

Segundo ela, o filho Gustavo Lessa Neto, também falecido, havia mencionado o interesse em emprestar o material para que a Universidade digitalizar. "Eu ia fazer isso, mas aí eu resolvi doar tudo. São papéis frágeis. Eu já tenho 93 anos. Depois que eu morrer, não sei o que pode acontecer com toda essa história", contou.
Gladys Alzira e Silva Lessa comentou sobre a importância de compartilhar memórias e conhecimento para o bem comum. "É claro que para as famílias, muitas coisas são lembranças valiosas. Mas eu acho que quando isso é compartilhado, toda a sociedade ganha. Eu incentivo quem quer doar, porque fui lá na universidade e vi que é tudo muito bem cuidado", elogiou.
Estrutura, rede de arquivos e o direito à memória
Atualmente sediado no Parque de Ciência, Cultura e Inovação da UENP, em Jacarezinho, o CEDHIS conta com suporte da reitoria para a aquisição de equipamentos adequados de acondicionamento, uma exigência técnica para a conservação de papéis antigos. A unidade integra a Rede Paranaense de Arquivos e Centros de Documentação das Universidades Estaduais e faz parte do NAPI Memória e Inovação, arranjo de pesquisa e inovação ligado à Fundação Araucária.
Para Janete Tanno, o trabalho de guardar e restaurar documentos históricos cumpre um papel social que ultrapassa os muros da academia. "A preservação documental não serve apenas ao pesquisador, ela é um instrumento de ampliação da cidadania. Nós trabalhamos com noções de direito à memória, ao pertencimento e à identidade. Todos os cidadãos têm o direito de conhecer suas origens e se enxergar na história da sociedade onde vivem", defende a professora.


Celso Felizardo
Editor com foco em conteúdo e planejamento.


