Na manhã de 29 de agosto de 1926, último domingo do mês, o Norte do Paraná viu, pela primeira vez, as notícias da região circularem em um periódico local. A edição de estreia do Paraná-Jornal, um semanário de quatro páginas com sede em Jacarezinho, sob direção de Allyrio Bonilha e F. de Assis Braga, trazia os acontecimentos sob a ótica de quem vivia a realidade do município, que despontava como o principal polo do Norte Pioneiro quando cidades como Londrina e Maringá sequer existiam no mapa.

A edição centenária, que registrou desde o esforço da Associação Comercial para garantir o envio diário de correspondências a Curitiba, evidenciando a histórica dificuldade de comunicação com a capital, até reclames comerciais da época, sobrevive graças ao trabalho de preservação do CEDHIS (Centro de Documentação Histórica) da UENP (Universidade Estadual do Norte do Paraná), sediado em Jacarezinho.

Imagem ilustrativa da imagem Primeiro registro da imprensa norte-paranaense completa 100 anos
| Foto: Reprodução/Acervo UENP

Para a historiadora Janete Leiko Tanno, coordenadora CEDHIS, a preservação da memória é de extrema importância. "O periódico é um documento fundamental para o historiador. Por meio dos jornais, nós conseguimos reconstruir a história política, social, econômica, cultural e o próprio cotidiano de uma época. Em uma única página você encontra desde as disputas políticas e as relações com o governo até a economia local, os anúncios de cinema e os registros da vida simples da comunidade", destaca Janete.

Segundo a pesquisadora, ter acesso a impressos das décadas de 1920 e 1930 no Norte Pioneiro é uma raridade. "É um achado. O Paraná-Jornal é o mais antigo registrado na cidade e nos dá a possibilidade de pensar a sociedade de forma ampla, compreendendo as tensões e os costumes de um período decisivo", pontua.

Ponte com a comunidade e o acervo privado

Ao contrário de regiões de ocupação mais recente, como o Norte Novo, o resgate documental no Norte Pioneiro enfrenta a barreira do tempo e da posse privada. Grande parte das fontes históricas permaneceu sob a guarda de famílias tradicionais e descendentes da elite cafeeira. "Em cidades de colonização mais antiga, o acesso à documentação que está em mãos de particulares é extremamente difícil. Você não consegue material simplesmente batendo na porta. É preciso construir pontes e laços de confiança", explica a historiadora.

Nesse processo, a atuação de parceiros locais e entusiastas da memória regional foi decisiva para que o acervo chegasse até a universidade. Ela destaca a parceria do jornalista e artista local Tiago Angelo, que também é servidor da UENP. "O resgate desses periódicos e dos nossos principais arquivos só foi possível graças à mediação e ao trabalho de busca do Tiago, que tem esse vínculo com a cultura e com a história da cidade e nos colocou em contato direto com esses guardiões da memória. Sem essa articulação, a universidade não teria acesso a esse patrimônio", reconhece a coordenadora.

Tanno cita doações importantes para o acervo, entre elas a da família Lessa, que inclui o periódico. “Eram documentos, livros, cartas e jornais que pertenciam ao meu sogro, Gustavo Lessa, que foi prefeito de Jacarezinho e deputado estadual. Era um homem muito culto. Ele lia muito e encadernava os jornais. Depois que ele morreu, esse material rodou por aí, mas voltou para a família", contou Gladys Alzira e Silva Lessa, que hoje mora em Londrina.

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| Foto: Gerado por IA/Gemini

Segundo ela, o filho Gustavo Lessa Neto, também falecido, havia mencionado o interesse em emprestar o material para que a Universidade digitalizar. "Eu ia fazer isso, mas aí eu resolvi doar tudo. São papéis frágeis. Eu já tenho 93 anos. Depois que eu morrer, não sei o que pode acontecer com toda essa história", contou.

Gladys Alzira e Silva Lessa comentou sobre a importância de compartilhar memórias e conhecimento para o bem comum. "É claro que para as famílias, muitas coisas são lembranças valiosas. Mas eu acho que quando isso é compartilhado, toda a sociedade ganha. Eu incentivo quem quer doar, porque fui lá na universidade e vi que é tudo muito bem cuidado", elogiou.

Estrutura, rede de arquivos e o direito à memória

Atualmente sediado no Parque de Ciência, Cultura e Inovação da UENP, em Jacarezinho, o CEDHIS conta com suporte da reitoria para a aquisição de equipamentos adequados de acondicionamento, uma exigência técnica para a conservação de papéis antigos. A unidade integra a Rede Paranaense de Arquivos e Centros de Documentação das Universidades Estaduais e faz parte do NAPI Memória e Inovação, arranjo de pesquisa e inovação ligado à Fundação Araucária.

Para Janete Tanno, o trabalho de guardar e restaurar documentos históricos cumpre um papel social que ultrapassa os muros da academia. "A preservação documental não serve apenas ao pesquisador, ela é um instrumento de ampliação da cidadania. Nós trabalhamos com noções de direito à memória, ao pertencimento e à identidade. Todos os cidadãos têm o direito de conhecer suas origens e se enxergar na história da sociedade onde vivem", defende a professora.

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