PRIMEIRA INFÂNCIA - 'Decidi cuidar da minha família'
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domingo, 28 de dezembro de 2014
Carolina Avansini<br> Reportagem Local 
No residencial Vista Bela, na zona norte de Londrina, uma mãe amorosa personifica os cuidados com a primeira infância de todo bairro. Marta Maria Machado, mãe de 11 filhos (sete deles adotados), tem muito trabalho diário para cuidar da enorme família que inclui filhos de 2 a 26 anos, o marido e parceiro Eduardo Eugênio da Silva e uma mãe já idosa com alguns problemas de saúde decorrentes de um AVC.
Generosa, porém, ela não se contenta com a missão de cuidar apenas das próprias crianças, tendo arrumado tempo e disposição para atuar como voluntária da Pastoral da Criança. Mais que isso, foi a responsável por levar o trabalho da entidade aos meninos e meninas de uma das regiões mais carentes de Londrina.
Há seis anos, porém, a vida de Marta era bem mais pacata. Formada em pedagogia, ela morava em Assis (SP) com o marido e os três filhos biológicos, dava aulas e mantinha uma rotina familiar tranquila. O coração desta dona de casa, entretanto, era sempre sobressaltado com notícias dos sete sobrinhos que viviam em Londrina. "A mãe não podia cuidar direito deles, então as crianças vivam jogadas de um lado para o outro, sem lugar certo para ficar. Quando minha mãe adoeceu, decidi voltar e cuidar da minha família."
Três anos depois, ela oficializou a guarda de todos eles. "Cheguei a ter seis bebês usando fralda em casa", lembra Marta, que hoje sente-se feliz por oferecer uma estrutura familiar concreta a todos eles. "Hoje, as crianças vão à escola, fazem um projeto de contraturno e sabem que têm uma casa para voltar, uma cama para dormir, um endereço para informar", diz, acrescentando que todos recebem apoio psicológico do Creas para lidar melhor com a situação.
Sobre o trabalho de voluntária, ela era constantemente convidada a ajudar, mas, diante da realidade familiar, achava que não daria conta. Foi só começar a atuar, entretanto, que "o amor despontou". "Hoje, uso o exemplo da minha própria família para sensibilizar as pessoas", afirma.
No Vista Bela, Marta garante que não falta trabalho. "Quando mudei para cá, não tinha creche, nem posto de saúde. Ainda falta muita coisa", diz a voluntária, que se empenha em ajudar as famílias a cuidarem e alimentarem melhor os filhos. Ela lembra, porém, que falta aos mais carentes um apoio efetivo do Estado com relação aos cuidados com a infância. "Apenas a pastoral não dá conta", critica.
Colega de Marta no trabalho voluntário na Pastoral, a dona de casa Vani Aparecida Stochi convive diariamente com as consequências da falta de estrutura para atendimento de crianças pequenas. A neta Iasmin, de um ano e quatro meses, peregrina diariamente pela casa dos avós paternos e maternos porque a família não consegue uma creche para ela ficar enquanto os pais trabalham.
"Minha filha não tem condições de largar o emprego. A Iasmin acaba ficando comigo ou com a outra avó e, muitas vezes, acaba acompanhando o pai no trabalho. Ela não tem rotina. Isso é muito ruim para uma criança pequena", lamenta.
Não foi por falta de empenho que a menina não conseguiu uma vaga. Como no Vista Bela a creche só atende crianças com mais de 4 anos, a avó se inscreveu em instituições de bairros vizinhos, mas ainda não conseguiu retorno positivo. "É difícil, porque ela fica cada dia com uma pessoa diferente. Além disso, quase não brinca com crianças", diz.


