São Paulo, 06 (AE) - A primeira etapa da Ferronorte, inaugurada hoje, com extensão de 410 quilômetros, consumiu investimentos de R$ 1,3 bilhão. A próxima etapa deverá consumir mais R$ 600 milhões, segundo o empresário Olacyr de Moraes, idealizador do projeto que desde o início vem sendo executado com recursos da iniciativa privada. Na segunda etapa, com mais 390 quilômetros, a estrada de ferro vai chegar até a cidade de Rondonópolis (MT), escoando boa parte da produção de soja da mais importante fronteira agrícola do País.
Olacyr de Moraes, que tem fazendas na região, atualmente tem 16,5% do controle da Ferronorte. Ele espera conseguir mais R$ 300 milhões do BNDES e mais R$ 300 milhões através do Fundo de Investimentos na Amazônia (Finam), com lançamento de debêntures (títulos de renda fixa emitidos por empresas não financeiras), para investir na obra.
A Ferronorte adquiriu 50 locomotivas elétricas de 4.400 HP cada, sendo que 16 delas já estão em operação no País. Também adquiriu 780 vagões de alumínio Hopper, das quais 630 unidades já foram entregues. Os equipamentos já estão sendo utilizados para transportar produtos agrícolas, especialmente soja, do Centro-Oeste para o Porto de Santos, utilizando os trilhos da antiga Fepasa (atual Ferropasa, da qual a Ferronorte também é acionista).
Os agricultores que desbravaram a nova fronteira agrícola nas últimas três décadas estão animados com os investimentos na construção de armazéns e agroindústrias. Culturas antes inviáveis por falta de transporte, como o milho e o algodão, agora perdem-se no horizonte em terras antes ocupadas por soja e gado. O divisor de águas entre o passado e o futuro econômico da região que começa no Noroeste paulista e vai até Rondonópolis, no Mato Grosso, abrangendo parte do território dos Estados do Mato Grosso do Sul, Goiás e Minas Gerais, é a ponte sobre o Rio Paraná, na divisa entre São Paulo e Mato Grosso do Sul, inaugurada no ano passado com investimentos do programa Brasil em Ação.
A obra desencadeou uma nova corrida de investimentos agroindustriais rumo ao interior. Ligando as cidades de Aparecida do Taboado (MS) e Rubinéia (SP), a ponte rodoferroviária de três quilômetros de extensão abriu passagem para os trens da Ferronorte. Além dos produtos agrícolas levados para Santos, na volta os trens devem transportar calcário, fertilizantes e outros insumos que sempre fizeram falta no interior por causa do elevado custo do frete rodoviário. Por falta de transporte para esses insumos, muitos agricultores já foram à falência nos últimos anos. Os mais prejudicados foram os gaúchos, paranaenses e catarinenses que chegaram ao Mato Grosso nos anos 70 para plantar arroz, a única cultura que podia ser cultivada sem o uso de corretivos no solo.
A área cultivada na região por onde passam os trilhos da ferrovia abrange 370 mil hectares que produzem 1,4 milhão de toneladas de grãos por ano. O consumo de adubos e corretivos é de 370 mil toneladas anuais. A soja representa 60% da produção e é totalmente destinada ao Porto de Santos, para exportação. O milho responde por 30% do volume e vai para o interior de São Paulo. O caroço de algodão vai para indústrias de óleo da Grande São Paulo e as fibras seguem para indústrias de tecido de Santa Catarina. Todo o transporte é rodoviário.
A Ferronorte tem pressa em chegar ao Mato Grosso, Estado brasileiro que responde por metade do crescimento da produção nacional de soja nos últimos dez anos. Este ano o Estado colheu 6,4 milhões de toneladas de soja, um quarto da produção brasileira de 30,6 milhões de toneladas. A expectativa dos produtores da região é a de que a ferrovia vai permitir uma redução de 40% nos custos de frete até o porto de Santos.
A área total de influência dos primeiros 400 quilômetros da Ferronorte é de 44 milhões de hectares, onde serão produzidos este ano mais de 15 milhões de toneladas de grãos graças a um clima estável que permite aos agricultores produzir com segurança o ano todo. Os agricultores que desbravaram o Centro-Oeste costumam dizer que a região é uma espécie de Paraná sem geadas. Com o transporte mais barato para o calcário e fertilizantes, muitas áreas hoje ocupadas por pastagens poderão ceder espaço para a produção agrícola. Cada trem de 120 vagões da Ferronorte vai substituir 360 caminhões por viagem.

mockup