Primárias em Iowa trazem confiança para Gore e preocupação para Bush Do correspondente Paulo Sotero
Washington, 25 (AE) - Antes de os eleitores de Iowa se pronunciarem, as apostas entre os analistas era que o ex-senador Bill Bradley, de Nova Jersey, tinha mais chances de supreender o vice-presidente Albert Gore na disputa da candidatura do Partido Democrata à Casa Branca do que tinham os cinco pré-candidatos republicanos diante do governador do Texas, George W. Bush, o franco favorito entre os conservadores que brigam pelo direito de disputar a presidência dos Estados Unidos no dia 7 de novembro.
O resultados da prévia realizada na noite de segunda-feira no pequeno estado rural no meio-oeste inverteram esses cálculos. Como esperado, Bush e Gore venceram e confirmaram suas posições de líderes da corrida à Casa Branca. Mas o vice-presidente saiu fortalecido, enquanto que o governador do Texas viu sua estratégia de unir os republicanos em torno de uma plataforma eleitoral centrista e pragmática ameaçada pela força demonstrada pelos candidatos da direita do partido, o que pode obrigá-lo a fazer uma correção de curso durante a fase preliminar do processo eleitoral e complicar suas chances nas eleições em novembro.
Bradley fica em situação difícil. Gore bateu o ex-senador por uma vantagem bem maior do que previram as sondagens - 63% contra 35% - e emergiu firmemente no comando dos democratas. Embora esperado, o triunfo de Gore é significativo não apenas porque confirmou a capacidade de mobilização política de um vice-presidente em exercício num processo de seleção comandado pelo dinheiro e que depende cada vez mais da máquina partidária. Ele venceu Bradley gastanto menos dinheiro em anúncios na televisão em Iowa do que o ex-senador ( US$ 1,6 milhão contra US$ 1,9 milhão) e depois de passar menos tempo do que seu rival ( 38 dias contra 63) num estado onde a presença física do candidato durante a campanha costuma ser um fator decisivo.
Mais significativo ainda é o fato de o vice-presidente ter batido seu desafiante por margens confortáveis em todas tendências e segmentos de eleitores democratas, em todas as faixas etárias e em todos os grupos de renda, com exceção da minoria que ganha acima de US$ 6 mil por mês.
O resultado potencialmente mais danoso para Bradley é que os eleitores não compraram a imagem de líder visionário, acima das frivolidades da política, que ele procurou projetar durante as muitas semanas que passou em campanha em Iowa.
Pesquisas feitas com os eleitores antes da decisão (que em Iowa não é feita por votos, mas pela contagem de cabeças em conchavos - "caucuses"- realizados em mais de 4 mil lugares, nos quais as pessoas se dividem por grupos de acordo com suas preferências), mostraram que entre os eleitores que acompanharam atentamente os debates entre os dois candidatos pela televisão, a maioria ficou com Gore. Mais: as sondagens e declarações feitas por democratas que permaneceram indecisos até chegar aos locais de assembléia indicaram que a maioria via no vice-presidente um líder forte e com propostas atraentes para reformar o sistema de saúde e as leis de financiamento das campanhas eleitorais, os dois grandes temas da campanha de Bradley.
O ex-senador reconheceu que os resultados da primeira prévia eleitoral não lhe ajudaram - "eles me deram um pouco mais de humildade", disse ele - mas prometeu continuar na luta, que se transfere agora para New Hampshire, tradicionalmente o primeiro estado a realizar uma eleição primária, ou seja, um pleito no qual as pessoas de fato votam. A votação em New Hampshire será na próxima terça-feira, dia 1º de fevereiro.
Tendo se comprometido a não fazer uma campanha na base dos ataques pessoais, Bradley está agora diante de um dilema. Se persistir em seu estilo suave e professoral, arrisca-se a levar uma nova lavada em New Hampshire, onde uma dúzia de pequisas concluídas no último fim de semana já colocam Gore na dianteira, com uma vantagem média de 7,5 pontos percentuais. Uma derrota em New Hampshire, com o mesmo padrão de votação de Iowa, pode comprometer o futuro da campanha do ex-senador antes das primárias da Califórnia e de Nova York, no dia 7 de março, que ele precisa ganhar se quiser manter a disputa até a convenção nacional do partido. Mas se partir para o ataque contra Gore, Bradley corre o risco de ser visto com um mau perdedor. "De um jeito ou de outro, estamos condenados", disse um de seus adeptos em Des Moines, na noite da segunda-feira.
Bush conseguiu a vitória que buscava. Os 41% que recebeu nos "caucuses" é a mais ampla maioria proporcional já obtida por um candidato republicano em Iowa. "Estou entusiasmado com o resultado recorde, mas recebo o resultado com humildade", disse ele. A necessidade de ser humilde reflete o preço que Bush pagou por ter ignorado Iowa durante meses e só ter se jogado no varejo político da campanha em novembro, quando sua posição já estava ameaçada.
Sua vantagem sobre o segundo colocado, o bilionário editor Steve Forbes, foi de apenas 11 pontos percentuais. Tendo conseguido 30% das preferências, bem mais do que as sondagens lhe prometiam, Forbes disse que New Hampshire converteu-se numa "corrida entre três candidatos" e deixou claro que gastará mais alguns milhões de sua imensa fortuna pessoal nos próximos dias para "repetir o que fiz em Iowa".
O terceiro participante da briga entre os republicanos em New Hampshire será o senador John McCain, de Arizona. Com menos recursos do que Bush e Forbes, McCain não participou da disputa em Iowa (onde, ainda assim, recebeu 5% dos votos). Ele concentrou suas energias em New Hampshire, onde lidera Bush nas pesquisas, e na Carolina do Sul, que ocorrerá uma semana depois. Sua decisão de ignorar Iowa comprovou-se correta. Não apenas Bush deixou de abrir, na primeira prévia, uma vantagem sobre seus desafiantes comensurável com os US$ 67 milhões em fundos de campanha que arrecadou e que representa um recorde absoluto na história das eleições presidenciais americanas, nesta fase. Os eleitores de Iowa, 40% dos quais se identificam com a direita do Partido Republicano, criaram um problema potencial para o governador do Texas dando 53% de seus votos aos três pretendentes mais conservadores.
A exemplo de Forbes, o comentarista de rádio, Alan Keyes, ex- embaixador dos EUA no Conselho Econômico e Social das Nações Unidas e único negro na disputa, supreendeu os analistas, recebendo 14% das preferências.
Gary Bauer, o candidato da direita religiosa, obteve 9%.
As votações recebidas por Forbes, Keyes e Bauer podem significar problemas para Bush por um par de razões. A primeira é que esses três pré-candidatos têm como causa comum a luta contra o que consideram a decadência moral dos Estados Unidos. Eles são defensores aguerridos da agenda cultural da direita, cujo tópico principal é a proibição do aborto. Mas esse é um tema que divide os republicanos e os coloca em minoria no país. Dois terços dos americanos acham que a legalidade do aborto deve ser preservada.
Embora Forbes, Keyes e Bauer não tenham a menor chance de emergir como candidatos viáveis à Casa Branca, ele podem atrapalhar a estratégia de Bush de se apresentar como um candidato centrista em novembro , se continuarem a receber votações expressivas. Pragmático, o governador do Texas disse que apóia a linguagem antiaborto da plataforma eleitoral do partido, mas não vê necessidade de uma emenda constitucional banindo o aborto, até porque já disse que permitiria interrupção da gravidez em casos de estupro, incesto ou para salvar a vida da mãe, em situações médicas complicadas.
O impulso que Forbes recebeu em Iowa também pode perturbar a decolagem de Bush de outra maneira, caso o editor bilionário consiga boa votação em New Hampshire, onde conta com o endosso do maior jornal do estado, o conservador Manchester Union. A presença de Forbes na disputa pode obrigar Bush a ir mais para a direita do que ele gostaria e os americanos desejam na discussão sobre redução de impostos. É um tema obrigatório da agenda dos republicanos. Mas, com os EUA no auge da prosperidade, o assunto perdeu prioridade entre os americanos, que estão hoje mais preocupados em usar os frutos fiscais da atual bonança para investir em educação, saúde e reforçar o caixa do sistema previdenciário com o objetivo de atender a uma população crescente de aposentados.
Há, por fim, o fato de que McCain continua entre 3 e 6 pontos percentuais à frente de Bush nas pesquisas em New Hampshire. Linda Di Vall, que assessorou a ex-minsitra do Trabalho e dos Transportes Elizabeth Dole em sua breve campanha à Casa Branca, disse ao Washington Post que os resultados de Iowa deixaram o senador de Arizona "numa situação quase perfeita" para seu primeiro embate eleitoral com o governador do Texas. Com McCain à esquerda de Bush, e Forbes à direita, "New Hampshire será um teste para ver se Bush é capaz de brigar ao mesmo tempo em duas frentes".
Alguns analistas acreditam ainda que, diante do resultado acanhado obtido por Bradley em Iowa, uma parte dos independentes, que constituem o maior bloco de eleitores em New Hampshire, podem migrar para McCain.
Isso é possível porque, em New Hampshire, os independentes podem esperar até o último momento para decidir de qual primária participarão.
O próprio McCain não está contando com esse tipo de ajuda. Ele lembrou, na noite de segunda-feira, que, historicamente, os resultados de Iowa não influenciam os eleitores de New Hampshire. Além disso, no próximo fim de semana poucos se lembrarão de Iowa. Apesar de todo movimento que gera, a prévia de Iowa foi decisiva e relevante para a eleição propriamente dita apenas uma vez, em 1976, quando o então governador do Georgia, Jimmy Carter, supreendeu os demais postulantes à candidatura democrata e colocou o estado no mapa eleitoral dos EUA.
McCain conta mais com a possibilidade de Forbes e Keyes dividirem o voto da direita com Bush. "Se eles tiverem, juntos, metade da votação que tiveram em Iowa, ou seja, 20%, será difícil para Bush vencer", disse um assessor de McCain. A briga entre os candidatos em New Hampshire esquenta a partir desta quarta-feira, com debates entre Gore e Bradley, por um lado, e Bush, McCain e os demais pretendentes republicanos.





