Primárias ajudaram Gore e prejudicaram Bush Do correspondente PAULO SOTERO5/Mar, 15:36 Los Angeles, 05 (AE) - Para efeitos práticos, a fase preliminar da campanha presidencial dos Estados Unidos terminará com as primárias de terça-feira. O ex-senador de Nova Jersey, Bill Bradley, que desafiou o vice-presidente Albert Gore, não deverá obter sequer uma vitória de consolação nas quinze prévias do Partido Democrata e já prepara o discurso de desistência. John McCain, o senador de Arizona, que animou a disputa no mês passado, supreendendo o governador do Texas, George W. Bush com sua candidatura rebelde, pode ganhar em alguns estados da Nova Inglaterra mas deve perder nos estados grandes, como a Califórnia, Nova York e Ohio, e ficará numa posição politicamente insustentável, sem chance de alcançar seu rival na contagem dos delegados à convenção partidária que escolherá o candidato republicano, em agosto. A confirmação dos candidatos favoritos dos dois partidos não significa, no entanto, que as primárias foram inúteis ou inconsequentes. Pelo contrário, elas produziram efeitos que poderão influir de forma decisiva nas eleições de novembro - a favor de Gore e contra Bush. McCain, um senador de reconhecidas credenciais conservadoras, surpreendeu Bush, um político mais centrista, mobilizando o apoio de eleitores independentes e atacando o governador do Texas pela esquerda com suas propostas de reforma das leis de financiamento de campanhas eleitorais e de uso do saldo fiscal dos EUA para reformar a previdência e a seguridade sociais. Ameaçado, Bush buscou ajuda na direita religiosa, que é uma parte importante da base republicana. O resultado , segundo cientista político Sandy Maisel, do Colby College, foi o enfraquecimento político de Bush. "Primeiro, revelou-se a incapacidade de Bush de conter logo no início o desafio de McCain", disse Maisel. "Além disso, o Bush vitorioso que emergirá da disputa será um candidato visto pelo público como um conservador aliado à direita do partido, e não como o articulador de consensos e o conservador com coração que conseguiu unir os republicanos em torno de seu nome antes que o primeiro voto tivesse sido dado". Do lado democrata, ocorreu quase que o inverso. "Bradley também atacou Gore pela esquerda, mas isso ajudou o vice-presidente, pois obrigou-o a caminhar mais para o centro e o deixou em melhor posição do que estava antes para concorrer à sucessão de Clinton", disse Maisel." Ameaçado, Gore trabalhou para consolidar o apoio dos sindicatos e de outros segmentos do eleitorado democrata, respondeu ao desafio de Bradley mostrando às minorias quem são seus verdadeiros aliados e, em geral, tornou-se um melhor candidato do que era antes". Thomas Mann, cientista político da Fundação Brookings, em Washington, concorda com a análise de Maisel. "A vantagem de mais de 20 pontos percentuais que Bush chegou a ter sobre Gore vinha diminuindo antes menos do início das primárias, por suas razões: o bom estado da economia e a alta taxa de aprovação do presidente Bill Clinton, cuja conduta pessoal os americanos deploram, por causa do "affair Lewinsky", mas cujas políticas a maioria aprova. "Mas os efeitos da campanha de McCain sobre Bush e da campanha de Bradley sobre Gore ajudaram o vice-presidente e prejudicaram o governador". Embora este não seja um fenômeno irreversível, "o fato inegável é que Gore entrará na nova fase da campanha com os dentes mais afiados e à frente de Bush na maioria das pesquisas de opinião".

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