Primária de amanhã na Virgínia é crucial para Bush Do correspondente PAULO SOTERO
Washington, 28 (AE) - Jesse Ventura, que se elegeu governador do estado de Minnesota em 1998 graças à fama de valentão que conquistou como campeão de luta livre na televisão, disse no último domingo que o vale tudo dos ringues é um "esporte limpo" comparado com a briga entre o governador do Texas, George W. Bush, e o senador do Arizona John McCain pela candidatura do Partido Republicano à Casa Branca.
Bush e McCain medirão forças novamente nesta terça-feira nas primárias da Virgínia e de Washington e nos "caucus" de Dakota do Sul. O maior prêmio são os 56 delegados em jogo nas primárias de Virgínia, estado sulista conservador onde o governador do Texas não pode se dar ao luxo de sofrer mais uma derrota.
Segundo as pesquisas, Bush está na dianteira, com cerca de 10 pontos percentuais de vantagem. Supreendido por McCain na semana passada em Michigan, depois de tê-lo derrotado na Carolina do Sul, o líder texano precisa vencer amanhã na Virgínia para confirmar a condição de favorito que a maioria dos analistas continua a lhe conferir, apesar dos estragos que o fenômeno McCain já causou à sua candidatura.
A disputa no estado de Washington, no noroeste dos EUA, é quase irrelevante entre os republicanos, em termos de delegados à convenção partidária na Filadélfia, que escolherá o candidato do partido, no mês de agosto. Na votação de amanhã serão selecionados apenas 12 dos 37 delegados que Washington mandará à convenção . Mas uma vitória de McCain, que está empatado com Bush nas pesquisas, poderia provocar novos prejuízos para o governador se vir acompanhada de um triunfo do senador também na Virgínia. Isso provaria que McCain é um candidato viável também no sul dos EUA e poderia iniciar o desmoronamento da campanha de Bush.
Na prévia de Dakota do Sul, que Bush deve vencer, há apenas 19 delegados em jogo, mas estes só serão escolhidos mais tarde, numa convenção estadual dos republicanos. Vitórias do governador do Texas em Porto Rico e nos três territórios ultramarinos de Guam, Samoa e Ilhas Virgens, no último fim de semana, aumentaram para 93 o número de seus delegados à convenção, contra 96 já garantidos por McCain. Disputará a Casa Branca o republicano quem conseguir o apoio de pelo menos 1.034 convencionais na convenção.
Tendo já se acusado mutuamente de ser "hipócrita", "uma fraude e uma piada", e posto a integridade pessoal um do outro em dúvida usando o presidente Bill Clinton como termo de comparação - não há, entre os republicanos, pior ofensa - os dois pretendentes conservadores estão agora usando a religião como munição na disputa. McCain marcou alguns pontos explorando a visita que Bush fez a uma universidade protestante ultraconservadora e anticatólica, na Carolina do Sul, há duas semanas. Abandonado por alguns políticos católicos de seu partido, que se bandearam para McCain, o governador do Texas pediu desculpas, no domingo.
Embalado pelo sucesso de sua candidatura rebelde e pelo recuo tático de Bush, o senador fez uma enorme aposta política hoje, num comício em Virginia Beach. Num gesto sem volta, de rompimento com uma ala influente do eleitorado conservador, McCain denunciou como "intolerantes" e "antiamericanos" os dois principais líderes da direita religiosa, Pat Robertson e Jerry Falwell. Os movimentos que esses dois pastores evangélicos comandam são sediados em Virgínia e, tradicionalmente, fornecem parte importante do dinheiro e da infantaria das campanhas presidenciais republicanas. O senador chamou Bush de "acólito" de Robertson e Falwell, referindo-se ao papel crucial que ambos tiveram na vitória de Bush nas primárias da Carolina do Sul, na semana atrasada, e nos esforços que fizeram para tentar evitar a derrota em Michigan.
A guerra religiosa entre os dois pretendentes republicanos é sintomática de um dos dois grandes problemas que o fenômeno McCain representa hoje para Bush. O primeiro é a inversão do que cada um deles representa no Partido Republicano. Em seus 17 anos como deputado e senador, McCain associou-se em quase 90% das votações no Congresso às propostas da direita americana. É, dos dois, claramente o mais direitista. Já Bush firmou uma reputação de republicano moderado e pragmático em seus quase seis anos como governador do Texas, negociando acordos com a maioria de oposição que controla o legislativo do estado.
Em 1998, por exemplo, ele conseguiu ser facilmente reeleito com o apoio maciço dos eleitores hispânicos, que no passado sempre se alinharam com os democratas.
Mas a autonomia política que McCain sempre demonstrou em relação à máquina do Partido Republicano, que apóia Bush, e sua capacidade de atrair os votos dos eleitores independentes nas primárias de formato aberto permitiram-lhe empurrar o governador do Texas para a direita.
Tendo permitido que McCain o definisse politicamente, Bush, que se preparava para enfrentar a direita do partido nas primárias e realçar sua vocação centrista, acabou fazendo campanha como um político muito mais conservador do que, na realiade, é. São exemplos disso sua corte à direita religiosa e a ênfase que teve que dar a questões sensíveis como o aborto. Presumindo-se que Bush ainda prevalecerá sobre McCain, isso pode comprometer suas chances frente ao vice-presidente Alberto Gore, pois as eleições presidenciais nos EUA se decidem no centro e não nos extermos do espectro político.
Gore enfrenta amanhã seu único rival, o ex-senador Bill Bradley, de Nova Jersey, nas primárias de Washington.
Mas a votação não escolherá os delegados à convenção e não passa de "um concurso de beleza". Em qualquer caso, a posição de Gore como candidato democrata parece estar consolidada e a única dúvida que há nos meios políticos é sobre quando Bradley abandonará corrida.
O outro grande problema de Bush é mais urgente. Ele está precisando de dinheiro. A rebelião de McCain forçou o governador a gastar muito mais e muito antes do que ele pretendia os mais US$ 70 milhões que levantou a partir de meados do ano passado- um recorde absoluto na histórias das primárias e que ajudou a criar a aura inicial de invencibilidade de sua candidatura. Embora continue a contar com uma organização superior à do senador de Arizona para disputar as mais de duas dúzias de primárias marcadas para as próximas duas semanas, em mais de duas dúzias de estados que concentram os maiores colégios de eleitores do país e mais de 70% dos convencionais em jogo, Bush perdeu a enorme vantagem do caixa que já teve sobre McCain. Na sexta-feira, seus fundos de campanha estavam reduzidos a cerca de US$ 10 milhões, contra US$ 8 milhões a US$ 9 milhões de McCain.
Perplexos diante do fato de Bush ter gasto US$ 60 milhões para eleger apenas 53 delegados, os grandes contribuintes republicanos começaram a cobrar explicações depois das derrotas de Bush em Michigan e no Arizona. Ele se queixaram, por exemplo, do que aconteceu no Arizona, que elege uma das menores delegações de convencionais e onde nunca houve dúvida sobre a vitória de McCain. Por essa razão, o governador do Texas não se deu sequer ao trabalho de visitar o estado. Mesmo assim, sua campanha torrou futilmente US$ 2 milhões em propaganda pela televisão num páreo que, como se esperava, ele acabou perdendo de lavada.
Com seu projeto presidencial ameaçado, Bush precisa provar novamente a viabilidade de sua candidatura para conseguir reabastecer seus fundos de campanha e voltar a empolgar seus correligionários. É isso que torna a votação de amanhã, na Virgínia, especialmente importante para o governador do Texas.





