Primakov rouba a cena de Yeltsin
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 29 de março de 1999
Por Timothy Heritage, da Reuters 
Moscou, 30 (AE-REUTERS) - Poderia ter sido o grande dia do presidente russo, Boris Yeltsin, mas, em mais um sinal dos novos tempos, o primeiro-ministro, Yevgeny Primakov, roubou a cena.
O discurso sobre o estado da nação - o mais importante no calendário político russo - feito hoje por Yeltsin, foi obscurecido pela missão de paz de Primakov à Iugoslávia e deixado em segundo plano pela mídia local.
A situação foi, de certa forma, injusta para Yeltsin, pois como há muito não se via, ele falou com vigor, disposição e fluência durante seu discurso ao Parlamento.
"O simples fato dele ter feito o discurso mostrou que é capaz e está politicamente ativo, além de ter deixado claro seu ponto de vista", disse o ex-secretário de imprensa de Yeltsin, Sergei Yastrzhembsky, antes de acrescentar: "Mas eu não ouvi nada de novo (...)".
Esse comentário somou-se à impressão de muitos políticos e também de russos comuns de que a autoridade de Yeltsin declinou tanto que não restou muita coisa ao presidente para oferecer, além de uma transição de poder tranquila no próximo ano.
Assim como os enfermos e idosos líderes soviéticos da década de 80, a aparência física de Yeltsin é acompanhada de perto, e depois de meses deixado de lado pela doença, ele perdeu sua importânica política para Primakov.
Em anos recentes, os discursos sobre o estado da nação feitos por Yeltsin eram acompanhados de perto por analistas políticos e financeiros. Desta vez, o mercado deu pouca atenção e os analistas encontraram pouca coisa que os surpreendesse.
Mesmo levando em conta o fato de Yeltsin ter lido o discurso até o fim, sua duração - de apenas 18 minutos -, entretanto, parece demonstrar as limitações físicas do presidente de 68 anos e as preocupações do Kremlin sobre como ele se sairia.
A reação dos parlamentares também sugeriu que as esperanças do presidente em fazer bonito não procederam.
Ele concentrou-se em temas familiares - defendeu a Constituição, prometeu eleições livres, atacou o crime, persistiu em reformas econômicas e jurou manter abertas as relações com o Ocidente, apesar dos ataques da Oton contra a Iugoslávia.
Embora alguns políticos tenham elogiado o discurso, até mesmo os aliados de Yeltsin tiveram dificuldade em encontrar alguma coisa nova em sua palavras.
O líder do Partido Comunista, Gennady Zyuganov, tradicional oponente de Yeltsin e que chegou a dormir durante o discurso, traduziu: "É a mesma velha música".
Ao mesmo tempo, Primakov era mostrado na televisão falando com jornalistas enquanto tentava resolver a crise da Iugoslávia.
Alguns políticos acreditam que, incomodado com o crescimento da influência de Primakov, Yeltsin teria enviado seu premier a Belgrado na certeza de que ele falharia em sua missão de negociar com o presidente Slobodan Milosevic.
Mas ninguém conseguiu encontrar no discurso de Yeltsin uma única palavra que indicasse uma rusga entre os dois líderes russos.


