São Paulo, 10 (AE) - Entre tantos avisos apocalípticos, seria recomendável conferir o calendário. O professor de Teologia e Ciências da Religião da PUC de São Paulo Mário Sérgio Cortella fez isso e identificou situação curiosa: quando o médico e astrônomo francês Nostradamus fez as suas profecias, não tinha condições de saber quando seria, exatamente, o terrível 11 de agosto de 1999. Por simples e boa razão: o calendário gregoriano, como nós o conhecemos, não existia.
A constatação é óbvia: Nostradamus morreu em 1566; o Papa Gregório XIII só definiu as datas do calendário em que vivemos em 1582. Quando Nostradamus fez suas apocalípticas previsões, a marcação de tempo com as referências que obedecemos hoje eram desconhecidas.
Baseado nessa dificuldade incontornável, Cortella define como "histeria ego-narcísica" típica do nosso tempo a pretensão de que o calendário adotado por uma parcela da humanidade - a ocidental - sirva para datar o fim do mundo.
O professor de Teologia assinala que, para os judeus, estamos em 5760, enquanto para os islâmicos "não chegamos nem a 1500", sem falar que, no calendário chinês, "já ultrapassamos 3000". Cortella insiste ainda que, para forçar a coincidência do novo calendário com a marcação de tempo lunissolar, então praticada, o Papa Gregório "tomou 14 dias" determinando que o 1.º de outubro daquele ano se transformasse em 15 de outubro. Teria Nostradamus previsto também esses repentinos desejos do Papa?
Coincidência - A época de Nostradamus coincide com o fim do Renascimento, lembrou Cortella, um período pródigo em utopias
positivas e negativas, como qualquer período que "tem de conviver com diferenças que chegam de toda parte". O século 20 tem muita semelhança com esse período, até mesmo, como disse Cortella, por uma espécie de "revival místico-fantástico", hoje agravado pela "religiosidade self-service".
Esse tipo de religiosidade, segundo Cortella, "lançando mão de todos os recursos místicos disponíveis", atinge todas as religiões e cultiva "uma obsessão pelo renascer depurado e purificado dos bons e dos crentes", que está embutida em qualquer idéia de fim de mundo. Se o calendário para a previsão "é meio duvidoso", um eclipse com data marcada faz bem esse papel, afirma o professor.

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