Rio, 19 (AE) - A fundação Previ, fundo de pensão mais influente do País, dos funcionários do Banco do Brasil, deixou o mercado em estado de sobreaviso quando anunciou que reduziria o peso das ações em seu patrimônio. Mas não significa que a dona de R$ 32 bilhões, capaz de ditar os rumos de uma privatização e com o poder dos grandes bancos, ficará em ponto morto. A venda de fatias de empresas virá acompanhada da aposta em setores que a Previ definiu como estratégicos e estão listados no documento "Políticas e Diretrizes de Investimentos 1999/2001", obtido pelo Estado. A Previ destacou seu interesse em comprar as ações da Petrobrás que a União venderá, quer estar nas próximas privatizações de serviços públicos e não deseja financiar as administrações públicas estaduais e municipais.
A proposta, elaborada pela diretoria de Planejamento e equipes acadêmicas, com subsídios dos bancos Icatu e Bozano, Simonsen, foi aprovada pelo presidente da Previ, Luiz Tarquínio Ferro. Falta a assinatura dos membros do Conselho Deliberativo, que receberam o documento no fim do ano passado. Segundo uma fonte do fundo, a disposição deles é mexer em pouca coisa. Uma das divergências é exatamente quanto ao limite da carteira de ações no patrimônio.
Tarquínio anunciou que os 54% de 1999 seriam reduzidos a 45%, mas alguns conselheiros defendem o nível de 50%, igual ao limite fixado pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) para os fundos de pensão. A carteira de renda variável da Previ é bastante diversificada e a fundação sempre gostou de estar na gestão dessas empresas. Atualmente, tem assento em 61 companhias
entre elas Companhia Vale do Rio Doce, Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), Usiminas, Brahma, Celpe, CPFL, Copene, Telefônica, Tele Norte Leste, Tele Centro Sul e Embraer.
O conselho concorda em não deixar a Previ investir em títulos públicos estaduais e municipais daqui para frente e, quanto aos setores eleitos para receber investimentos, reunidos no que a Previ chamou de aglomerados estratégicos, a diretoria não deve enfrentar resistências.
O conselho compartilha da empolgação da Previ pela Petrobrás. Nesse tópico, a Previ certamente enfrentará as críticas dos que dizem que é dinheiro público - porque o fundo recebe contribuições financeiras do Banco do Brasil - comprando patrimônio público. Mas Tarquínio, que não quis comentar o documento, costuma responder que a Previ administra dinheiro privado, porque é patrimônio dos 118 mil participantes da fundação.
Atrativos - Os setores de gás e petroquímica, nos quais a Petrobrás atua, foram tachados de altamente atrativos, apesar dos riscos regulatórios destacados em um cenário macroeconômico "intermediário" escolhido pela fundação, depois de considerar cinco diferentes níveis de sucesso do ajuste fiscal do Brasil, do destino da dívida pública e da eclosão de crises internacionais. Em gás, a recomendação é participar das privatizações. "Particularmente, propõe-se aumentar a participação da Petrobrás S.A. na carteira de investimentos da Previ", diz o documento, no capítulo sobre petróleo. O governo venderá 34% das ações ordinárias (com direito a voto) da estatal
montante que excede o mínimo necessário para manter o controle da empresa e a Previ vai aproveitar.
A diretoria diz que no momento não pode enquadrar a Petrobrás como empresa estratégica, porque a fundação não faz parte do bloco de controle, mas abre a exceção para o investimento e expõe os motivos: a estatal terá papel fundamental na reestruturação do setor de energia, influenciando as empresas em que a Previ tem participação. Além disso, se a Petrobrás for privatizada, a fundação espera ter ganhos.
Atenta à onda de reestruturações, a Previ analisou com cuidado os setores em questão. No confuso setor siderúrgico, em que o governo quer incentivar o descruzamento de participações, o fundo propõe a manutenção dos investimentos.
Justamente porque, desatado o nó acionário, teria possibilidade de valorização das ações. A Previ é sócia da Usiminas, Acesita, Belgo-Mineira e CSN, que por meio da Companhia Vale do Rio Doce tem participação na Companhia Siderúrgica de Tubarão (CST), Açominas e Usiminas.
Essa é uma questão complicada. A Previ e o empresário Benjamin Steinbruch, controlador da CSN e da Companhia Vale do Rio Doce, não cedem e não conseguiram se acertar sobre o descruzamento. Segundo o documento, a fundação tem uma fatia relevante em mineração, considera a Vale uma operadora mundial e recomenda a manutenção dos investimentos, com "maior participação no quadro de controle". No ramo de papel e celulose, a idéia é concentrar aplicações na "eventual empresa ABC", que seria a fusão da Aracruz, Bahia Sul e Cenibra, as duas últimas controladas pela Vale.
A Previ teve papel expressivo no leilão do Sistema Telebrás e quer manter seus investimentos. Pode apostar em novos negócios e uma das condições é que as empresas invistam no ramo de Internet. Energia elétrica também é um setor muito atrativo para a Previ. Na quinta-feira, ela comprou em consórcio a Celpe (Pernambuco) e já tem ações da Cosern (Rio Grande do Norte) e Coelba (Bahia).
Foco - A fundação alerta para a necessidade de focalização em um eventual processo de investimento e desinvestimento em energia elétrica, porque esbarra no limite máximo proposto para o setor. Mas no conselho a vontade é participar do leilão das grandes geradoras: Furnas, Chesf e Eletronorte. Na venda das defasadas companhias de saneamento básico, por causa do grande espaço para ganhar eficiência, também deve ter dinheiro da Previ.
Participações - As participações em ferrovias e saúde podem aumentar. No varejo, a Previ destaca o Grupo Pão de Açúcar
por ser o único gigante de capital aberto, e qualquer aumento de participação deve acontecer no segmento de supermercados. A indústria eletroeletrônica não deve comemorar agora.
Na linha marrom, a Previ não tem participação direta e nem deve ter, por causa da estrutura predominantemente familiar das empresas. Uma boa oportunidade no futuro será o Projeto Cinescópio, eventual fusão de empresas para produzir cinescópios para televisores.
Na linha branca, a Previ recomenda até mesmo a venda de ações. Um sinal de onde deve ocorrer a redução da carteira de renda variável. A venda foi proposta também no setor têxtil, com concentração na empresa que parece mais "promissora", a Coteminas. O setor de portos ganhou "viés de redução", porque ainda vale dar um voto de confiança às empresas recém-privatizadas. Em bebidas, a ordem é esperar o desdobramento da AmBev, a fusão entre Brahma e Antarctica.
O documento ressalta a preocupação da Previ quanto à "excessiva concentração" de controle da Embraer na mão de três sócios - além da fundação, outro fundo de pensão, a Sistel, e o Bozano, Simonsen. Isso daria pouca liquidez às ações. A Previ incentivava a entrada de um ou mais sócios estrangeiros, para diluir a posição do fundo e diminuir o risco.

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