Uma pesquisa inédita feita em maternidades do município de São Paulo revela o quanto ainda é falha a prevenção da Aids entre recém-nascidos. O levantamento, conduzido pelo Ministério da Saúde em parceria com os programas estadual e municipal de DST/Aids, mostrou que 35% das gestantes atendidas em 38 hospitais da rede pública de saúde não fizeram o teste para o diagnóstico da infecção pelo HIV. A prática, recomendada há anos pelo Ministério da Saúde, é essencial para adoção de terapias que reduzem o risco de transmissão do vírus da gestante para o feto.
Uma portadora de HIV grávida que não se submete a tratamento adequado tem um risco de 25% de infectar a criança, no parto. Havendo amamentação, a possibilidade de transmissão sobe, em média, mais 14%. Essa porcentagem cai para 8% com o tratamento com AZT feito durante a gravidez, o parto e para o recém-nascido durante seis semanas. E diminui até para 2% quando, além do AZT, outras medidas são instituídas.
‘‘É preciso redobrar a vigilância, principalmente porque estamos falando de uma doença crônica’’, adverte a médica Ana Maria Aratangy, que acompanhou o estudo em São Paulo. No levantamento, foram entrevistadas 550 gestantes que passaram pelas maternidades do município no mês de dezembro de 1999.
Ana Maria atribui a alta porcentagem de mulheres que não fizeram teste de Aids durante a gravidez a vários motivos, entre eles o preconceito dos médicos. ‘‘É incrível, mas, apesar de toda a informação, há muitos profissionais que ainda acreditam que a Aids é um problema que atinge apenas mulheres que têm grande número de parceiros sexuais’’, afirma. Essa idéia, no entanto, há tempos foi derrubada. A médica enfatiza, por exemplo, que 40% das mulheres infectadas por via sexual tinham apenas um parceiro.
Para Ana Maria, os números do levantamento refletem um problema de dimensões nacionais. Dados do Ministério da Saúde mostram que apenas 19,5% das gestantes infectadas pelo vírus foram submetidas a tratamento durante o parto, para evitar o contágio do bebê.
‘‘Estamos intensificando o trabalho de prevenção, procurando esclarecer os profissionais e as mulheres sobre a necessidade da realização dos exames’’, diz Ana Maria. Além disso, a partir do próximo mês deverá aumentar a distribuição em maternidades de kits para detecção rápida do HIV.
Hoje o material está disponível em 28 hospitais do Estado. Com verba do Ministério da Saúde, esse número será duplicado. ‘‘É uma solução paliativa’’, admite Ana Maria. ‘‘Mas é a alternativa encontrada até que todos os profissionais de saúde se conscientizem da necessidade de realizar o teste durante o pré-natal.’’
Com uma gota de sangue, em poucos minutos o exame mostra se a gestante está ou não infectada pelo HIV. Se o teste for positivo, a mãe recebe AZT durante o parto e outras medidas preventivas são tomadas.

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