Pressionados pela polícia, sem-terra desocupam sede do Incra em PE
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quarta-feira, 03 de março de 1999
Por Angela Lacerda 
Recife, 04 (AE) - Pressionados pela polícia, os cerca de 500 sem-terra que invadiram ontem a sede do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), em Recife, desocuparam, no começo da tarde de hoje, o prédio do órgão, em cumprimento a uma ordem judicial de reintegração de posse expedida pelo juiz da 4ª Vara Cível Federal, Antônio Bruno de Azevedo Moreira. Parlamentares e sindicalistas ainda tentaram negociar com o oficial de Justiça responsável pelo cumprimento da liminar, mas não houve acordo. Mais de cem policiais militares e 30 agentes da Polícia Federal participaram da operação. Não houve confronto. Inquérito instaurado na PF vai apurar os danos causados pela ocupação, assim como a denúncia de cárcere privado. Os sem-terra são acusados de manter cerca de cem funcionários do Incra como reféns.
Tão logo saíram do prédio, os trabalhadores começaram a armar acampamento nas calçadas em frente e ao longo da sede do instituto. "Espero que a gente não seja despejado também daqui com ações de reintegração de posse de calçadas e ruas", ironizou o líder do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) em Pernambuco, Jaime Amorim. Segundo ele, os sem-terra pretendem ficar no local até conseguir negociar recursos do Programa de Créditos Especiais para Reforma Agrária (Procera) para os 82 assentamentos - cerca de 6.200 famílias assentadas - coordenados pelo movimento no Estado.
Amanhã (05) pela manhã uma comissão deve ser recebida pelo superintendente regional do Incra, Roosevelt Gonçalves. Hoje à tarde o prédio permaneceu fechado. Polícia - A PF instaurou inquérito para apurar a invasão e já identificou as lideranças da ocupação, que, segundo o delegado federal Lacerda Carlos Júnior, serão responsabilizadas por invasão de prédio público, eventuais danos à sede do Incra e cárcere privado.
Os sem-terra mantiveram cerca de cem funcionários como reféns até o final da noite de ontem. Os servidores só foram liberados depois que a PF ameaçou invadir a sede do órgão.
Acostumados a invasões e até a serem mantidos como reféns pelos sem-terra, com quem mantinham bom relacionamento, dessa vez os funcionários se assustaram com o comportamento agressivo dos trabalhadores. "Infelizmente não podemos mais confiar neles", disse o chefe de Recursos Humanos do Incra, Juvenal Leite. "Durante a noite, eles ameaçaram explodir o prédio com os bujões de gás que trouxeram, caso a polícia invadisse".
O procurador-chefe do Incra, João Andrade, que também foi mantido como refém e chamado de "palhaço", hoje, por Jaime Amorim, disse que os prejuízos causados pelos invasores se restringiram a cadeados e portas arrombadas.
Após a saída dos sem-terra, a Polícia Federal recolheu cerca de 30 objetos - foices, porretes, barras de ferro, pedaços de trilhos - que os sem-terra teriam deixado escondidos na lixeira, tanque dágua e entre as árvores. Eles também recolheram nove garrafas e três latas de aguardente. Negociação - Deputados estaduais do PT e PC do B, sindicalistas e advogados tentaram negociar com o oficial de Justiça, Paulo Roberto Monteiro, uma forma de os sem-terra entregarem as chaves do prédio, mas permanecerem no pátio do órgão. Sem negociação e com trabalhadores adiando a saída, as polícias Militar e Federal entraram para pressioná-los a deixar o local.
Antes de acatarem a ordem, os invasores gritaram palavras de ordem do movimento, enquanto, de mãos dadas, "abraçavam" o prédio. Anyes de deixarem o prédio, ainda cantaram o Hino Nacional.


