Brasília, 18 (AE) - O diretor-geral da Polícia Federal, João Batista Campelo, não resistiu à pressão e pediu demissão hoje, três dias após ter sido empossado. O pedido de exoneração foi prontamente aceito pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, que está no Rio de Janeiro, comemorando seu aniversário com a família, e o nome do novo diretor da PF poderá ser anunciado na segunda-feira. A decisão será tomada em conjunto com o ministro da Justiça, Renan Calheiros.
Na carta que enviou ao presidente, Campelo afirma ter posto o cargo à disposição por "compreender a grave situação política vivida no País neste momento". No início da noite, o delegado divulgou uma nota justificando sua saída. "Saio do comando do Departamento de Polícia Federal, como entrei, de cabeça erguida, com minha consciência tranquila e com a certeza de que, pela segunda vez, fui vítima de forças poderosas, hoje homiziadas em Alagoas", diz no documento. "Como o apóstolo João Batista, minha cabeça foi pedida na bandeja, só que desconheço a Salomé destes dias."
Na nota, o ex-diretor da PF declara ser um cidadão brasileiro "honesto" e com 30 anos de serviços prestados à Nação. "No meu discurso de posse afirmei que não era um estranho no ninho", acrescenta Campelo. "Descendo deste honroso cargo, vou esforçar-me para não me sentir um estranho em meu país."
O delegado frisa que pôs o cargo à disposição para deixar Fernando Henrique à vontade. Ele se recusou a dar entrevistas e deve passar o fim de semana descansando na fazenda de um amigo. O governador de Roraima, Neudo Campos, convidou-o a reassumir a Secretaria de Segurança Pública do Estado, que ocupava ao receber o convite para a Polícia Federal.
A queda de Campelo, que já fora candidato à direção-geral da PF em outras ocasiões, tornou-se inevitável após o depoimento do ex-padre José Antônio Monteiro à Comissão de Direitos Humanos da Câmara, na quarta-feira, em que confirmou ter sido torturado, na PF do Maranhão, em 1970, durante interrogatório conduzido por Campelo, que não se teria oposto ao uso de instrumentos como pau-de-arara para a obtenção de informações. Em testemunho à comissão quinta-feira, o diretor da PF não conseguiu desmentir o ex-padre, tornando insustentável sua permanência no cargo.
A repercussão negativa do depoimento culminou com manifesto divulgado pelo PSDB quinta-feira exigindo sua saída, "com ou sem provas" da veracidade das acusações. O Palácio do Planalto não confirma, mas sabe-se que o partido consultou o presidente antes de soltar a nota, qualificada como a "gota dágua" para o desfecho de hoje.
A interlocutores próximos, Fernando Henrique chegou a dizer que um pedido de demissão espontâneo de Campelo seria seu melhor presente de aniversário. Apesar do escândalo criado pelas denúncias, o presidente relutava em demitir o delegado por não dispor de nenhuma acusação concreta e temer mais uma crise no governo.
Com os rumores de sua exoneração iminente, Campelo resolveu pedir demissão, sentindo-se humilhado com o processo de fritura a que foi submetido durante toda a semana. Não bastassem as denúncias de tortura envolvendo sua atuação no Maranhão, ele passou a ser investigado oficialmente pelo governo, tomou posse em uma cerimônia de 10 minutos e ainda teve de prestar depoimento na sindicância aberta na Comissão de Direitos Humanos da Câmara. Magoado e constrangido, o delegado resolveu pôr um ponto final no assunto antes do fim de semana.
"Este será o meu presente de aniversário ao presidente Fernando Henrique Cardoso", disse Campelo ao deputado Elton Rohnelt (PFL-RR) logo depois de entregar a carta de demissão. O delegado fez um desabafo sobre o "inferno" em que sua vida foi transformada desde a indicação do seu nome para o comando da PF. Ele lembrou ter sido abandonado pelo governo, que não destacou nenhum líder para defendê-lo ou prestar-lhe solidariedade no depoimento prestado na Comissão de Direitos Humanos.
Também pesou na sua decisão, a nota oficial do PSDB, exigindo sua demissão. "Ele se estava achando muito pressionado", revelou Rohnelt. A outro interlocutor, Campelo disse não ter esquecido da "humilhação" que sofreu no dia da posse, quando o ministro da Justiça evitou qualquer aproximação e ao mesmo tempo fez um discurso que durou pouco mais de 10 segundos.
"A família e os amigos me pediram muito para eu sair do governo", contou. Ansioso, o delegado não conseguiu dormir na noite da quinta-feira, dia em que chegou a passar mal após enfrentar os deputados. A pressão para o delegado deixar o comando da PF não foi só dos amigos e parentes. No fim da manhã de hoje, já havia uma certeza dentro do governo: a demissão de Campelo não passaria da sexta-feira. O delegado vinha recebendo acenos do Palácio do Planalto, que esperava pelo seu pedido de demissão, mas chegou a reagir. "Renunciar é assumir a culpa; se o presidente me colocou nessa furada, ele que assuma o desgaste de me colocar para fora", desabafou no fim da manhã para um amigo. "Eu estava muito tranquilo em Roraima e não precisava passar por isso", completou.
À tarde, Campelo mudou de idéia. Ele atribui seu desgaste ao "grupo de Alagoas", liderado pelo senador Teotônio Vilela Filho (AL), presidente nacional do PSDB, e por Renan Calheiros. "Alagoas sempre se insurge quando a nomeação de diretor da PF é técnica, afinal lá tem muitos crimes federais para investigar que estão parados", insinuou Rohnelt.
Dentro do governo a decisão de Campelo foi comemorada. "Foi sensato da parte de Campelo o pedido de demissão por causa do que avaliamos na quinta-feira sobre a sua situação", disse Teotônio. "Ele estava sem condições políticas de permanecer no cargo."
A saída de Campelo, entretanto, não encerra a crise entre a Polícia Federal e a Casa Militar, por causa do controle do combate ao narcotráfico. O nome a ser escolhido pelo presidente poderá provocar uma nova crise política, já que o general Alberto Cardoso, ministro-chefe da Casa Militar, continua defendendo a nomeação do delegado Zulmar Pimentel.
No Planalto, colaboradores próximos a Fernando Henrique não acreditam na escolha de Zulmar Pimentel, apostando que uma nova crise seria deflagrada. Segundo essas fontes, a ala da Polícia Federal influenciada pelo ex-diretor-geral Vicente Chelotti faria novo bombardeio.
Cardoso, que bancou a indicação de Campelo, teria reconhecido nesta semana sua culpa no episódio. "O general só pensou tecnicamente na indicação, e esqueceu da repercussão política da nomeação de uma pessoa com o passado do Campelo", contou um assessor do Planalto.

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