Pressão no trabalho reduz desejo sexual
Agência Folha
De São Paulo
Pesquisas feitas no Brasil e Itália comprovam que tensão, cansaço e ansiedade afetam o equilíbrio mental e podem interferir na libido
As pressões do trabalho influenciam a vida sexual dos casais. A tensão, o cansaço e a ansiedade afetam o equilíbrio mental e podem chegar até a interferir na libido (desejo sexual), principalmente da mulher. Essa é uma das conclusões de três pesquisas feitas no Brasil e na Itália, entre mulheres trabalhadoras. Os dados constam do livro recém-publicado A Mulher, a Sexualidade e o Trabalho, da socióloga, sanitarista e professora da Unifesp Eleonora Menegucci de Oliveira.
As três pesquisas foram feitas entre 1992 e 1995. Dois desses levantamentos foram feitos em São Paulo, com 66 dirigentes sindicais e com 81 trabalhadoras de diferentes categorias profissionais. A outra pesquisa foi realizada em Milão (Itália), com 102 trabalhadoras de quatro setores: empresas metalúrgicas, indústrias alimentícias, escritórios de saúde e sindicatos.
A pesquisadora relata que a sobrecarga de trabalho, a ameaça de perder o emprego, a pressão pela produtividade e a competição causam tensão psíquica no trabalhador em geral, criando um estado de sofrimento mental. Esse estado se encontra no limiar entre o estresse e uma depressão muito forte.
Segundo Oliveira, as mulheres são as mais atingidas pelos sintomas designados como Dort (Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho), antes conhecidos como LER (Lesões por Esforço Repetitivo). A cada grupo de cem pessoas com Dort, de 80 a 85 são mulheres. Elas não conseguem cuidar dos filhos, perdem autonomia nas ações domésticas, e isso tudo age na vida sexual das mulheres, causando desequilíbrios hormonais (alterações nos ciclos e fluxos menstruais) e baixa da libido, diz.
Algumas mulheres, por causa de lesões provocadas pelo trabalho, chegam a ficar impossibilitadas de fazer tarefas rotineiras. A dor física, as pressões psicológicas e sociais, aliadas à jornada extensiva de trabalho da mulher (que começa em casa, passa pelo local de trabalho formal e vai terminar novamente em casa), acabam por deixar a mulher menos disponível para o sexo.
O excesso de tarefas que tem a realizar quando chega do trabalho, seja no cuidado com os filhos, no preparo da comida ou afazeres domésticos, muitas vezes não permite que a mulher sinta vontade de fazer mais nada a não ser descansar, segundo avaliação da pesquisadora.
Esses dados são normalmente ignorados quando as trabalhadoras procuram ajuda médica e o tratamento costuma se resumir a antidepressivos. Isso não resolve a causa dos problemas e podem então aparecer as chamadas doenças invisíveis, que não são medidas ou notificadas, como a insônia, a intolerância, o medo, a tristeza e a solidão.
Eleonora Oliveira afirma que, assim como o trabalho pode atuar como um fator destrutivo da vida sexual, ele pode também funcionar como um suporte para melhorá-la.
Se o ambiente físico for agradável e o trabalhador souber como prevenir a tensão, sua jornada diária não deverá causar distúrbios. Quando a experiência profissional é vivida com mais prazer, com bons amigos por perto, com relações de respeito entre os colegas e quando o trabalhador percebe que é ouvido dentro da empresa e valorizado, as pessoas se sentem melhor.





